8 de fev de 2015

Thiago Pethit & Lou Reed

Eis aqui um texto bem antigo: foi um dos primeiros que escrevi para o Scream & Yell do Marcelo Costa - e que ainda não estava no arquivo do Pergunte ao Pop. Uma crítica a um show específico de Thiago Pethit cantando a obra de Lou Reed - e que uma oportuna conversa nesta semana me fez relembrar. Apesar da minha crueza como jornalista (risos), ainda gosto bastante dele. Fica como curiosidade.
No último dia 18/01, no Sesc Consolação, em São Paulo, o cantor Thiago Pethit apresentou, dentro da série de shows “Ingressos Esgotados”, um espetáculo baseado nas canções de Lou Reed. A idéia do projeto era proporcionar ao público uma nova chance de assistir ao repertório de artistas internacionais que passaram pela cidade no ano passado, desta vez em releituras de novos artistas – nos dias seguintes, Juliana R cantou Paul McCartney e a banda Moxine mostrou músicas de Beyoncè. Entretanto, mais do que um simples show de covers, a apresentação de Pethit permite uma reflexão sobre a sua própria carreira – há uma diferença razoável entre a arte que ele faz, a que ele pensa fazer, e a do novaiorquino a qual ele interpretava naquela noite.

O lançamento de seu álbum “Berlim, Texas”, em 2010, fez de Pethit um queridinho da mídia paulistana – uma busca rápida por seu nome no Google trará, em sua primeira página, resultados como “Confirmado: cabelo de Thiago Pethit está na moda”. O cantor, em seu site, alega que o disco se trata de uma viagem entre “as noites frias dos cabarés esfumaçados da Alemanha pré-nazista e os dias ensolarados – e regados a uísque cowboy – dos saloons texanos”. No show, o cantor, acompanhado de uma formação que incluía tanto guitarra, baixo e bateria quanto violino, flauta e saxofone, não só cantou grandes clássicos de Lou Reed como também incluiu algumas canções de sua lavra.
Ao cantar suas próprias composições, como a empolgada “Nightwalker” e a delicada “Mapa Múndi”, o paulistano deixava entrever, em lugar do cantor de saloon, uma aura de bom moço. Era o que ficava claro em versos como “You can break my heart in one or two / or in a zillion pieces”, de “Sweet Funny Melody”, ou no romantismo inocente de “Your shoes will take you for a walk / And they will lead to my door” (“Nightwalker”). Ainda que exista beleza nessas canções, quando elas foram expostas em contraste ao universo de Lou Reed – como nos melhores momentos do show, em “White Light White Heat” e “Sweet Jane” – mostrava-se ali uma grande disparidade. Era difícil acreditar naquele moço no palco cantando, ao mesmo tempo, sobre o “wild side” e “everybody’s darlings” e também sobre seu coração despedaçado de maneira tão inocente que já se sentia mal com apenas duas doses de bebida.



Usando as palavras colocadas na boca de Lester Bangs – um conhecido rival e provocador do líder do Velvet Underground – pelo diretor Cameron Crowe em “Quase Famosos”, “a grande arte é sobre conflito, dor, culpa, saudade, amor disfarçado de sexo e sexo disfarçado de amor”. É o que se vê nas grandes letras e histórias de Lou Reed – um homem que se jogou de cabeça procurando algo maior em namoros com travestis, heroína ou álbuns sobre cabarés soturnos em Berlim. E que também alcançou novas possibilidades musicais, de maneira que ele tornou-se influência para obras musicais tão diferentes como as do cantor Antony (de Antony & the Johnsons), dos Strokes e de Morrissey.

Talvez nem seja o projeto artístico de Pethit ter tamanha proximidade com o mundo de Lou Reed, povoado por figuras de sexualidade por vezes indefinida, perversões e alucinações. Entretanto, o cantor paulistano, ao explicitar que procura fazer um som inspirado nos lugares que dão título a seu disco, acaba se aproximando de outros bardos encharcados pela bebida e pelas drogas e mais do que experientes na vida noturna (e soturna), como Tom Waits e Leonard Cohen. Entre o bom moço, cujo som é bem aceito por adolescentes (a platéia estava apinhada deles e delas, que se derretiam aos versos da já citada “Mapa Múndi”), e o poeta dos lugares que ele mesmo se diz cantor, ainda existe um longo caminho. Possivelmente ele é maior que a distância de 8000 quilômetros, que separa os cabarés e os saloons imaginados por Pethit.

(publicado originalmente no Scream & Yell, em janeiro de 2011)

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