25 de jul de 2014

Plutão & Outros Planetas

Um espectador um pouco mais atento sobre a produção do cinema brasileiro recente conseguirá perceber que — para além das comédias tolas da Globo Filmes, das películas de cunho religioso ou de thrillers de ação retirados da realidade policial dos morros, presídios e favelas tupiniquins — uma pequena, mas significativa safra de filmes adolescentes vêm aos poucos se estabelecendo no País. Trata-se de um grupo que, após a chamada Retomada do cinema nacional, começou a dar suas caras com os primeiros longas-metragem do diretor gaúcho Jorge Furtado (os inocentes e já clássicos Houve Uma Vez Dois Verões, de 2002, e Meu Tio Matou Um Cara, de 2004) e teve em Laís Bodansky um bom momento (As Melhores Coisas do Mundo, de 2010). Às vezes, esse grupo derrapa, por exemplo, ao se aproximar da linguagem de Malhação (os ‘globais’ Desenrola, um American Pie às avessas e sem escracho lançado em 2012, e Confissões de Adolescente, verdadeiro caleidoscópio bubblegum que deixou nostálgicos telespectadores na mão no começo desse ano), mas encontra seu caminho ao apostar em um jeito simples de contar histórias (o singelo Antes Que o Mundo Acabe, também de 2010). Agora, a “seleção de novos” acaba de ganhar um representante de primeira linha: Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, do diretor paulista Daniel Ribeiro.

Originado a partir de Eu Não Quero Voltar Sozinho, um curta de 2010 que teve boa carreira no YouTube (mais de 3 milhões de visualizações) e uma história de proibições de exibição em escolas do País, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho mostra de maneira singela duas questões críticas da adolescência: a descoberta da sexualidade e a busca por uma identidade própria, além de amizades infantis e da superproteção dos pais. Ambos os temas aparecem aqui na pele de Leonardo (Guilherme Lobo), um jovem cego, e de Giovana (Tess Amorim), sua melhor (e única) amiga, que faz questão de levá-lo em casa todos os dias após a aula, mesmo morando no sentido contrário ao do caminho de Leonardo. A amizade dos dois tem anos e anos de história, mas pode mudar rapidamente com a chegada de Gabriel (Fabio Audi), um novo colega de escola, recém-transferido do interior de São Paulo.

A chegada de Gabriel não é fortuita: como uma notícia que chega despercebida e causa uma revolução, o garoto acaba por, mesmo sem querer querendo, mudar a relação entre os velhos amigos. No início, tudo vai bem quando ele parece ser o terceiro eixo de um triângulo inseparável, mas, no momento em que, por um capricho da professora da escola, a dupla para um trabalho escolar tem de ser formada apenas entre meninos ou entre meninas, Giovana acaba ficando de lado. Nas tardes em que ela fica na biblioteca para pesquisar sobre (as mulheres de) Atenas, os dois garotos vão à casa de Leonardo e, à moda dos jovens espartanos, esquecem o trabalho em prol de audições de Beethoven, Mozart (saídos do iPod de Leo, um fã de música erudita) e Belle & Sebastian (novidade trazida por Gabriel, que diz que o gosto pela música é a única coisa que compartilha com seu irmão mais velho).

Além do afastamento por causa de Gabriel, a amizade entre Leonardo e Giovana sofre outro baque quando o garoto começa a fazer planos para fazer intercâmbio, tentando alçar voo além das asas de uma mãe superprotetora (Selma Egrei) e de um pai atencioso (o ótimo Eucir de Souza, da série (fdp), produzida em 2012 pela HBO Brasil) e buscando escapar de um mundo em que todo mundo o conhece como “o ceguinho” — vale a pena prestar atenção nas cenas em que o garoto sofre bullying na escola por causa de sua deficiência visual. Para Leonardo, sair do país parece um plano perfeitamente normal, mas Giovana se chateia ao perceber que nem foi levada em consideração nas intenções do rapaz, tal como um certo planeta que foi rebaixado do Sistema Solar. Como se não fosse o bastante, tudo parece piorar quando Leonardo resolve revelar à garota que está apaixonado por… Gabriel, por quem ela também está a fim. O resto, claro, é a história que não se conta aqui, caro leitor.

Filmado de maneira que transita entre o delicado (a cena do moletom é um primor de delicadeza há tempos não filmado por lentes brasileiras) e o cômico (frases como “se eu fosse Plutão e me contassem que eu tinha sido rebaixada eu ia ficar muito chateada”, esta dita por Giovana, garantem boas risadas), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho apresenta situações típicas da vida de um adolescente de classe média, não se importando com o fato de que seu protagonista é cego (e, em alguns instantes, até se aproveitando desse fato para estabelecer gags textuais que acabam conferir leveza às situações exibidas na tela).

Estão lá as primeiras festas, o primeiro gole de álcool (sem acompanhamento de juízos de valor moralistas), a tensão típica diante do primeiro beijo, a vontade de sair de casa e ser independente, o cotidiano da escola, a relação apaixonada com a música e o cinema. Tudo apresentado de forma suave e sem correria, sem a necessidade de falar tudo ao mesmo tempo agora e sem a pretensão de ser um registro definitivo sobre a adolescência. Entretanto, ao apresentar sua história de maneira simples, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho faz um relato hughesiano (em conteúdo) e doce (em forma) da juventude, com direito a uma esperta trilha sonora. Além dos já citados clássicos e Belle & Sebastian, o filme ainda conta com Cícero em um passeio de bicicleta, Tatá Aeroplano e um par de canções estrangeiras que devem ter custado muito em direitos autorais e causam sorrisos na sala escura: “Modern Love“, de David Bowie (esta ecoando dois grandes filmes recentes, As Vantagens de Ser Invisível e Frances Ha), e “Let’s Get It On“, de Marvin Gaye.

Em exibição nas salas comerciais do País desde 10 de abril, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho chegou aos cinemas brasileiros com a credencial de ter sido premiado no Festival de Berlim em uma competição paralela de filmes com temática LGBT, o prêmio Teddy. Em entrevistas à imprensa brasileira, seu diretor o apresentou como um “filme gay”. Entretanto, reduzi-lo a tal rótulo parece tão reducionista quanto chamá-lo de “o filme do menino ceguinho” ou resumir Azul é a Cor Mais Quente (outro recente êxito cinematográfico sobre a homossexualidade) como “o amor entre duas lésbicas”. Em seu próprio título, o filme já assume sua condição de independência, buscando o reconhecimento e a independência das minorias que representa. O que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho faz com tanta naturalidade é mostrar a arte do encontro entre duas ou várias pessoas, e o amadurecimento delas (naquilo que os americanos adoram chamar de “coming of age”), seja qual for sua condição física ou orientação sexual. Bom cinema, no fim das contas, é feito de gente e de boas histórias — e, nesse caso, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho cumpre os dois aspectos como ninguém, sem precisar ser chamado de Plutão a toda hora.

(originalmente publicado no Ovo de Fantasma, em abril de 2014)

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