5 de mar de 2011

Quando 3 é Menos Que 1: O Amor e Outras Drogas

Sabe quando você compra uma coisa, te entregam outra um bocado diferente da primeira e, mesmo assim, você é capaz de gostar da troca? Talvez seja essa a principal sensação que ocorre à mente quando se vê O Amor e Outras Drogas, estrelado pelo jovem e talentoso casal formado por Anne Hathaway e Jake Gyllenhaal. O filme, que começa com aquele jeitão de comédia corrosiva sobre o mundo corporativo americano (no caso, a indústria farmacêutica), torna-se no meio do caminho uma dramédia romântica das mais típicas. Entretanto, graças à boa atuação da dupla, isso não chega a ser exatamente um grande problema.

A primeira meia hora do filme é irresistível: situado na segunda metade dos anos 90, mostra a ascensão de Jamie Randall (Gyllenhaal), um charmoso representante farmacêutico da Pfizer - laboratório gigante, que produz, entre outros, o Zoloft e o Viagra. A seqüência na qual toca "A Well Respected Man", dos Kinks, é exemplo dessa cáustica ironia, típica de filmes como Obrigado por Fumar. Seria um caminho interessante a ser seguido pelo filme, um tapa com luva de pelica, ainda que tardio, nos ideais yuppies.

Ao buscar alavancar as vendas de um dos remédios do laboratório dentre os médicos de um município de Ohio, Randall acaba conhecendo Maggie Murdock (Hathaway), uma linda (jura?) moça de 26 anos que sofre dos estágios iniciais do mal de Parkinson. É por saber que a doença a destruirá pouco a pouco que Maggie dedica-se a relacionamentos fugazes e sem profundidade, como inicialmente faz com Randall. (Cabe aqui um comentário de borracharia: só por determinadas cenas mais ardentes de Hathaway o filme já valeria a pena). O resto da história nem precisaria ser descrito aqui: o mocinho se apaixona pela mocinha, a mocinha não quer um relacionamento, e os dois tentam e lutam por seu amor, e a doença se mostra como empecilho a qualquer progresso. (Dito dessa maneira, a trama soa como um dramalhão mexicano. Não chega a tanto).

As críticas mais vorazes a Amor Sem Escalas, um dos filmes a princípio mais interessantes sobre o comportamento do "homem moderno", baseavam-se que o filme dava uma guinada sentimentalóide um tanto artificial em sua última meia hora. A acusação procede - e serviria até certo ponto pra julgar O Amor e Outras Drogas. Aqui, porém, a transição é feita de maneira um pouco mais suave - mas não a ponto de não ser percebida claramente por um espectador mais desatento. Isso se deve não só à já citada boa química entre os atores, mas também graças ao humor por vezes agridoce, por vezes azedo de Maggie e pela presença, apesar de ofuscada, importante do irmão de Jamie, Josh (Josh Gad). Além disso, há que se considerar que este é um filme muito menos ambicioso do que o protagonizado por George Clooney.

O Amor e Outras Drogas, com o perdão do trocadilho, não é um filme viciante. Falta a ele certo vigor e certa definição: apesar dos bons remendos, é possível, como já dito, conceber três filmes a partir das idéias nele apresentadas. Mas é uma boa comédia romântica, e, para além de suas duas horas de entretenimento fácil, pode fazer pensar sobre a efemeridade do amor na era contemporânea, ou porque talvez seja tão difícil manter um relacionamento hoje em dia. Ou só nos fazer delirar com a beleza de Anne Hathaway.

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