21 de mar de 2011

Um Nerd Para A Todos Governar


Os primeiros segundos do filme, com o símbolo da Universal sendo exibido em 8-bits, não deixam mentir: Scott Pilgrim Contra o Mundo é um filme basicamente nerd. As espertas referências sobre a cultura pop, o nível de comédia baseado um bocado no nonsense e no humor herdado de histórias em quadrinhos - o que é um tanto quanto natural, já que a película é baseada numa HQ de Brian Lee O'Malley - e o visual de videogame das cenas de ação só reforçam a idéia. Mas não estamos falando aqui de um filme de nicho. Se alguém que passou sua adolescência inteira longe de ficar trancado no seu quarto com revistinhas e cartões de RPG, ainda assim será capaz de sair da sala de cinema gostando do longa-metragem.

Scott Pilgrim (Michael Cera) é um "adolescente atrasado" de Toronto que toca numa banda de garagem, a Sex Bob-omb, e deseja o sucesso. Ele "namora" Knives Chau, uma colegial cinco anos mais nova que ele. Namorar é força de expressão: eles jogam Dance Dance Revolution toda tarde, mas nada de beijos ou amassos. Ao mesmo tempo, o herói ainda não se recuperou do pé-na-bunda que levou de sua última namorada, agora uma estrela do rock. É nessa hora que ele se apaixona por Ramona Flowers, uma americana cool cujos cabelos mudam de cor semanalmente. Se isso tudo ainda não fosse um problema, pra ficar com ela, Pilgrim terá que lutar contra a “Liga dos Sete Ex-Namorados de Ramona Flowers”

Esses conflitos servem como grande pretexto para que se exponham algumas das mais divertidas cenas de batalha do cinema recente. Sejam elas uma disputa de baixo elétrico (porque guitar heroes já não tem mais aquele charme) ou uma luta com espadas que é impactada pelo universo gamer: não é qualquer hora que um protagonista recebe uma arma com o singelo nome de “Espada do Amor Próprio”, com direito a um “bônus” de pontuação em sua confiança e personalidade. Além disso, os sete mal-encarados ex-namorados da moça também servem como símbolo para mostrar que os nerds também amam – e justamente por isso, o filme pode ser apreciado pelo público comum.

Scott Pilgrim, antes de ser um nerd, é um desajustado – especialmente no que diz respeito a garotas. Ele mora com um amigo gay, Wallace Wells (Kieran Culkin), cuja vida sexual é muito mais bem sucedida. Sua irmã mais nova (Anna Kendrick, de Amor Sem Escalas) liga pra ele a todo o momento para debochar ou reclamar das besteiras que Scott faz. Ele é tímido, não consegue superar relacionamentos passados, usa xavecos ruins e tem a capacidade de falar as coisas erradas nas horas erradas. Mas ao mesmo tempo, ele tem um ótimo coração, e é capaz de amar e lutar por seu amor. Isso soa como um gigantesco clichê, mas é essa história de amor – e algumas piadas um pouco mais acessíveis, como a cena do roubo do namorado da irmã de Scott pelo amigo gay – que tornam o filme uma boa diversão mesmo pra quem não vive sua vida como uma canção dos primeiros discos do Weezer.

Assim como nos filmes de Tarantino, uma das boas diversões do filme para os “iniciados” no mundo da cultura pop é ficar caçando as referências que utiliza. Isso acontece tanto no universo dos games – o nome da banda de Scott, Sex Bob-omb, é inspirado nas bombinhas dos jogos do encanador Mario -, quanto no da música – dois coadjuvantes do filme chamam-se Stephen Stills e Young Neil, e o filme se passa no Canadá. Os bons diálogos também colaboram: é difícil não rir da fina ironia das falas de Wallace debochando de Scott – preste atenção na cena que emula o clima de Seinfield – ou do charme bobão que o protagonista exibe em certos momentos.

Duas coisas ainda são dignas de nota: Michael Cera vem, filme a filme (Juno, Superbad, Uma Noite de Amor e Música), se consagrando como o grande ator desse tipo de personagem. O que pode ser tanto benéfico – por consagrá-lo e criar identificação fácil com o público – quanto horrível – quantos atores não ficaram estigmatizados por interpretarem apenas um tipo de personagem? Como cereja do bolo do filme, a trilha sonora é caprichada, seja nas canções originais do loser Beck e do Broken Social Scene, seja na recuperação de clássicos do rock como “Teenage Dream”, do T-Rex, “To Ramona”, de Bob Dylan, e “Under My Thumb”, dos Rolling Stones.

Há um momento, indeterminado, nos últimos dez anos, que virou moda ser nerd – ou pelo menos se parecer com um. Isso é resultado de uma confluência de fatores e interesses. Nos últimos dez anos, viver à frente de um computador – e saber entendê-lo – deixou de ser uma atividade reclusa e passou a ser necessidade básica. Percebeu-se também que é possível ganhar dinheiro e status com essa idéia: Steve Jobs, Bill Gates, Mark Zuckerberg e Larry Page, para ficar apenas em quatro nomes, hoje habitam os primeiros degraus da lista da Forbes de homens mais ricos do planeta, e são admirados nos quatro cantos do globo. A indústria de videogames já alcançou – e em alguns anos, superou – o faturamento de Hollywood. O estilo de vida nerd também começou a ser propagado no horário nobre americano: além da sitcom The Big Bang Theory, séries como CSI, Heroes e Lost , na sua especificidade de conhecimentos técnicos e na regurgitação de símbolos a cada segundo, tem tudo a ver com os garotos dos óculos fundo-de-garrafa.

Entretanto, não dá pra dizer se essa é uma tendência que vem pra ficar ou se simplesmente é outra febre passageira. Nem cabe aqui discutir essa questão com tanto afinco. A questão é: se esse estilo de vida realmente interessa às pessoas, eis aqui o exemplo a ser seguido: com muito humor, bons diálogos e um ritmo ágil, muito próprio dentro do que se costuma chamar de “cinema contemporâneo”, Scott Pilgrim Contra o Mundo pode amealhar – se é que a HQ já não fez isso – uma série de seguidores fanáticos, assim como Star Wars ou Senhor dos Anéis - ainda que em menor proporção, claro. E no meio desse turbilhão de ícones de 15 minutos, algo poder chegar ao ponto de despertar tanto fascínio assim, meus amigos, não é pouca coisa.

(publicado originalmente no Scream Yell em novembro de 2010)

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