15 de mai de 2011

Rock'n Roll dos Céus - Teenage Fanclub em SP

Ao longo de sua carreira de mais de vinte anos, o Teenage Fanclub nunca chegou a atingir o topo das paradas e ser um sucesso de público, mas definitivamente conquistou o coração de poucos mas ardorosos fãs. Quando os hoje tiozinhos Norman Blake, Gerard Love e Raymond McGinley entraram no palco da The Week, na última quarta-feira, pelo Whisky Festival, talvez fosse possível dizer que já o faziam com o jogo ganho. O que, no entanto, não significa que não tenham feito um show sem energia ou economizaram esforços - quem ali esteve com certeza presenciou um momento histórico.

Em turnê com o álbum Shadows, marcado por uma sonoridade calma e próxima ao soft rock, os escoceses trouxeram em sua segunda passagem por São Paulo – a primeira foi em 2004, no SESC Pompeia - o que sabem fazer de melhor: melodias que podem não ser inovadoras, mas são tocantes e sublimes. Ou, traduzindo de um jeito de quem é do meio: suas canções trabalham estruturas tradicionais da música pop, mas de maneiras que alcançam patamares inacreditáveis. Isso sem falar nas letras apaixonadas do grupo, capazes de declarações lindas como "o seu amor é o lugar de onde eu vim" ou "eu roubaria um carro pra te levar para casa".

A apresentação começou morna, com canções dos discos mais recentes da banda - bonitos, mas que não fazem barulho perto do passado glorioso de Grand Prix (1995) ou Bandwagonesque (1991). Entretanto, foi a partir de "Don't Look Back" que o Teenage Fanclub trouxe à casa uma vibração incrível, como se, de repente, São Paulo tivesse virado a Glasgow de 91, com pulos, coros e declarações de amor da plateia ao trio.


Entretanto, cabem algumas ressalvas à organização do show: se por um lado ela acertou na casa escolhida, e no bom bar, que não enfrentava filas, por outro teve problemas na venda dos ingressos, que foi mal anunciada e rápida demais, na escolha do DJ - o set de Lúcio Ribeiro por pouco tempo animou os presentes - e no horário do show - previsto para as 22h, a banda só entrou no palco à meia-noite em pleno dia de semana, deixando seus fãs sem como voltar pra casa de transporte público.

Problemas esses, entretanto, que foram superados pela simpatia de Blake, McGinley e Love. Poucas são as bandas que tem a sorte de conseguir enfileirar, em suas apresentações, tantas canções bonitas: o que dizer de uma sequência como "I Need Direction", "Mellow Doubt" e "Your Love Is The Place Where I Come From", ou ainda "Sparky's Dream" e "The Concept" - essa última, com direito a um solo de guitarra que poderia ser descrito facilmente com uma frase como "quando você chegar ao céu, se não estiver tocando isso, será algo muito parecido".

Talvez não tenha sido de fato um show marcado por surpresas, mas como disse Nick Hornby certa vez ao descrever o grupo, "você também pode criticar um círculo por não ter ângulos retos". No bis, que começou com a calma "Sweet Days Waiting" e contou com a presença de "Neil Jung", uma das melhores faixas de Grand Prix e que não vinha sendo tocada pelo grupo, a sensação de união da plateia chegou a níveis estratosféricos. Durante as músicas finais do show, "Discolite" e "Everything Flows", mais de cem roqueiros veteranos e barbudos dançavam juntos, em uma onda desorganizada e feliz, como se não se importassem com o resto do mundo. Mesmo às duas da manhã, em plena quarta-feira, difícil foi encontrar um fã que não saiu com um sorriso no rosto da The Week. Cenas que só a beleza do rock'n roll do Teenage Fanclub consegue explicar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário