3 de jul de 2013

Mo Ghile Mear: Casamento de Viúva em Dublin

Duas coisinhas rápidas: sim, eu já cheguei no Brasil, mas este texto foi escrito no avião de Roma pra Lisboa. Quero ainda pousar com calma nessa cidade problemática pra poder respirar e escrever sobre a volta, de maneira que vou ficar devendo pra vocês falar de Paris, Berlim, Roma e Florença. Prometo que volto a elas fazendo roteirinhos de viagem legais, mas cheios de pessoalidade. Por agora, fiquemos com Dublin.

Sabedoria de boteco, vamos lá: toda viagem tem altos, baixos, e pontos médios- dos quais você até se lembra com carinho, mas precisa esfregar um pouco os olhos para trazer à memória. Depois do amor pela Inglaterra - ou melhor, pela garota de vestido de verão que foi Londres - e pela decepção com a Holanda, eu andava precisando de uns dias para dar uma descansada no ritmo da viagem, com menos correria e mais contemplação. Encontrei isso em Dublin, uma cidade que a princípio entrou no roteiro só por ter um show do Neil Young (e outro do Chelsea Light Moving, a banda nova do Thurston Moore) em datas que pareciam caber direitinho, e um pouco mais. Mas não muito... 

Pouca coisa deu pra fazer no primeiro dia, é verdade, entre a chegada no hostel após os dois vôos (de Amsterdã pra Liverpool e de Liverpool pra Dublin), o almoço (um hambúrguer 3 fatias de bacon do Gourmet Burger Kitchen, com boas Rosemary Potatoes (leia-se: batata frita com alecrim, que nem a da Lanchonete da Cidade) e Coca-Cola refil) e um banho rápido antes de sair pro show do Neil Young. O domingo, porém, foi cheio de coisas bacaninhas. 

A primeira delas foi o walking tour de três horas e pouco que eu e a Lelê fizemos pela cidade. Sei que a princípio passar muitos minutos da viagem ouvindo alguém falando sobre um monte de gente que já morreu (risos) acompanhando de pessoas que você nunca viu na vida pode parecer uma má ideia, mas não me arrependi de nenhum dos cinco que eu fiz na viagem toda (os dois de Barcelona, este, além dos de Paris e de Berlim, em breve comentados aqui). Pelo contrário: recomendo todos. 

Este de Dublin, por exemplo, foi bem bacana pra entender toda a relação entre a Irlanda e a Inglaterra, a Grande Fome (que me fez rever o antigo slogan "batata salvou irlandeses da fome, me salvará também") e a luta pela independência liderada pelo Liam Ne... pelo Michael Collins, além, é claro, de pequenas histórias sobre Star Wars (a biblioteca do Trinity College é inspiração para a biblioteca Jedi) e os filhos mais famosos da terra, o U2. (A parte vergonha do tour foi quando a guia revelou que eles pararam de frequentar os bares dos quais são donos no Temple Bar para evitar o assédio dos... brasileiros que povoam Dublin). Depois de muito andar, um almoço bacaninha de ensopado de carne com batatas em molho de Guiness (a ideia é melhor que a execução, aviso) e um passeio pela O'Connell Street, até dar a hora de partirmos pro show do Chelsea Light Moving, que ia rolar num pub tipicamente irlandês, o Whelan's. 

Antes do show, entretanto, um momento para provar que os garçons e garçonetes estão entre as cinco profissões mais admiradas por este escritor. Parei em frente ao balcão para pedir uma sidra (tudo culpa do Marcelo Costa), enquanto as primeiras notas de "Respect" soavam nas caixas acústicas do lugar. Sincronizadamente com Aretha Franklin, o garçom virou pra mim e cantou, na maior animação possível, "WHAT YOU WANT?". 

Risos infinitos - e o astral lá em cima para ver o show estrondoso do Chelsea Light Moving, com toda a estirpe típica do ex-guitarrista do Sonic Youth. Sem fazer concessão ao repertório de sua antiga banda, Moore mostrou que ainda tem bastante lenha pra queimar, seja nas músicas do primeiro disco do novo grupo ou em novas faixas, como em uma adaptação de um poeta "punk", John Donne. Pra lavar a alma de distorção. 

Dois shows em dois dias seguidos são algo estafante para qualquer um, por isso pegamos mais leve ainda na segunda-feira: acompanhados pela Bárbara, amiga da Lelê que mudou recentemente pra Dublin e tem um blog bem bacana sobre a vida lá na Irlanda, com várias dicas de viagens, fomos à National Gallery of Ireland, vimos a estátua do Oscar Wilde e brinquei de ser fotógrafo das duas na rua em que o U2 gravou o clipe de "The Sweetest Thing". 

Se você é fã de cerveja, provavelmente já deve estar indignado com o fato que eu fui a Dublin e ainda não comentei nada sobre beber Guiness. Calma, calma, caro amigo cervejeiro: depois de me despedir das duas (Lelê, minha companheira de viagem até o momento, ficou pela cidade por mais uns dias para nos reencontrarmos em Berlim no fim da semana), rumei até à Guinness Storehouse pra desfazer essa má impressão que o senhor possa vir a ter de mim. (Risos). 

Em um prédio arrendado por Arthur Guinness por 9 mil anos (é sério), e onde funcionava a fábrica da bebida até pouco tempo atrás, seis andares contam toda a história da stout mais famosa do mundo de maneira divertida - até mesmo pra quem não bebe, juro mesmo. O ponto alto da visita, pelo menos pra mim, foi o final, quando você pode ir tomar um pint de Guinness no terraço da fábrica, um lugar com uma das melhores vistas da terra do Bono. 

E foi nesse clima despreocupado que eu tive a minha melhor imagem da capital irlandesa, em um dia de mais ou menos sol, com as pessoas na rua aproveitando o "verão" pra curtir em um pub ou simplesmente tentando chegar em casa. Pra resumir: é uma cidade legal, mas que precisava um pouco mais de mim pra me conquistar. Acontece.

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Um comentário:

  1. Walking tour é tudo de bom.

    Brasileiro em Dublin tem aos montes (inclusive eu!).

    Fotógrafo bacana: nós tivemos!

    Dublin, depois de conhecer outras capitais (como Londres, que você adorou), pode parecer meio sem graça mesmo, mas eu adoro essa cidade. O interior do país é mais bonito, claro: verdinho, ovelhinhas, paisagens lindas.

    Prazer conhecê-lo e obrigada por me mencionar aqui! :) (coloca o link, coloca o link! vou te linkar no meu blog)

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