Em tempos de "retiro espiritual" deste blog, que anda bissexto graças à readaptação deste autor em terras brasileiras, acolhemos uma colaboração do grande Victor Francisco Ferreira, que já escreveu para este espaço falando do Red Hot Chili Peppers e do show dos Pontos Negros em Lisboa. A bola da vez agora é o Bloc Party e seu novo EP, The Nextwave Sessions. Simbora!
O que dizer sobre este EP que mal conheço e já considero
pacas? Primeiramente, que ele não é para qualquer um. Como assim? Simples. Ele
não é inovador, não é sensacional, não é magnífico. Não traz a sonoridade da
moda, seja ela o “indie folk” dos Mumford and Sons ou o “dancefloor indie” dos
Two Door Cinema Club. É simplesmente um EP do Bloc Party.
Então, se quiser saber se lhe é recomendável ouvir The Nextwave Sessions, assinale a
alternativa que mais se assemelha a você:
a)
‘AMO BLOC PARTY, O KELE É LINDO!!1! s2’;
b)
‘Curti quase todos os discos deles’;
c)
‘Só curto o Silent Alarm’;
d) ‘Bloc Party? Aquela do playback no
VMB?’.
Respostas: a), b) e c):
Ouça. d) Pare de ler aqui e volte ao
Facebook.
No geral, a sonoridade se aproxima muito mais do Intimacy, terceiro disco de estúdio dos
londrinos, lançado em 2008, que do Four,
lançado em 2012. Cada música, porém, apresenta suas pequenas nuances e dialogam
com os outros trabalhos da banda.
Já que me alongarei bastante a partir daqui, digo já uma das
minhas conclusões. É uma boa coisa que tenha sido lançado apenas um EP com seis
canções. Apesar de agradável, não parece que essa ‘nem-tão-nova’ fase da banda
teria fôlego para aguentar um novo álbum. Não é a toa que, junto com o
lançamento de The Nextwave Sessions,
Kele Okereke, Russell Lissack, Matt Tong e Gordon Moakes tenham anunciado outro
hiato por tempo indeterminado.
“Ratchet” abre os trabalhos do EP e é também o primeiro single retirado do projeto. Além da
batida dançante, que lembra canções como “Mercury” e “One More Chance”, ela traz
no refrão uma guitarra que reproduz a insolência tonal típica das pistas de
dança: crescimento preguiçoso, semitom a semitom, em que cada um acresce
excitação. Puristas chamariam de desafinação mesmo. Único obstáculo no caminho
do sucesso em ‘baladinhas cool’ é a ausência de graves fortes. Para tocar e
agradar, é preciso remixar (rima pobre). Mas quem conhece sabe que os arranjos
sempre tornam o baixo do Gordon como um gol de time do Parreira mesmo: um
detalhe.
Em seguida vem “Obscene”. Para quem curtiu as canções lentas
de The Boxer, disco solo do Kele, de
2010, é um bom revival. Percussão aguda, suave. Grave constante, mas também
suave. O ponto alto é o eco do refrão. Sempre chamado por um desabafo emocional
‘keliano’, ele, depois de tanto obedecer, resolve se rebelar. Deixa um vazio
circunstancialmente belo, para depois fazer as pazes e reaparecer tão simples e
poeticamente quanto em sua saída. Para entender minha verborragia, só ouvindo.
“French Exit” é daquelas músicas boas, mas que dificilmente
entrariam em um álbum. Mas é exatamente para isso que existem os EPs e as
B-Sides. Talvez seja uma das que mais remetam ao Four, mas sem o peso e as distorções de “We Are Not Good People” ou
“3x3”.
A quarta é “Montreal”. Por algum motivo também inexplicável,
notei um sarcasmo sonoro típico de símios polares (da espécie Macacus arcticus). Repito que não é
sarcasmo lírico. É sonoro mesmo. Também por outro motivo aleatório, acho que
seria uma boa trilha sonora para menus de jogos como FIFA ou PES. E não
pergunte por quê. Música é, antes de tudo, subjetividade. Nada é absoluto
(VISH). Além da melodia, destaco o aqui o baixo simples, pontual e efetivo,
como sempre, de Gordon Moakes.
Ah, “Children
of the Future”. Esperei ansiosamente 3691 caracteres para falar dela por
um simples motivo. Não sei se fui só eu, mas a primeira vez que ouvi o Silent Alarm pensei: “É assim que soaria
o Blink 182 se fosse mais maduro e londrino”. Pois esta dialoga justamente com
essa fase, principalmente no riff de abertura que se repete ao longo da música.
Pode ser considerada uma versão calma da ambientação de “Little Thoughts” ou “This
Modern Love”.
Por fim, a bonus track que não é tão bonus assim, já que vem
discriminada como as outras no pacote, “X-Cutioner’s Song”. Fecha o EP sem
rodeios. Guitarra distorcida, bateria firme. Provavelmente entraria no Four
para fazer companhia a “Coliseum” e “Kettling” se lhe fosse dada a chance.
Moral da história: os cinco dólares pagos no The Nextwave Sessions valeram a pena.
Não tanto pelo EP em si, mas sim pelos quatro discos e as três grandes
coletâneas de b-sides do Bloc Party baixadas gratuitamente nos últimos oito anos.
Mas o importante é que agora tenho seis novas canções para me acompanhar
diariamente nessa ‘nave louca chamada’ vida. É isso.
Wear a condom.
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