19 de abr de 2011

De volta a 1986, a bordo do DeLorean

Antes de tudo, é preciso avisar que esse texto não pretende ser um retrato completo da Virada Cultural: seria humanamente impossível fazer isso de maneira coerente. Vou apenas me focar nos quatro shows que vi, durante a tarde de domingo, no palco da Praça Júlio Prestes: Plebe Rude, Frejat, Blitz e RPM. Qualquer leitor atento poderia perceber que se tratam de artistas que não estão no auge de sua carreira - e todos eles surgidos durante a pax roqueira dos anos 80 no Brasil. Feito Marty McFly em seu DeLorean, os shows do dia 17 valem a pena como uma viagem de volta a 1986.

Debaixo do sol forte do meio-dia, e com um público ainda se recuperando da noite anterior - os pontos mais lotados não eram os próximos ao palco, mas sim debaixo da sombra - a Plebe Rude fez um show relevante, mas morno. Comemorando 30 anos de banda, Philippe Seabra & cia. alternavam os grandes clássicos do mini-LP O Concreto Já Rachou com músicas mais recentes, que não contavam com o mesmo apelo junto ao público. Em pouco mais de uma hora, couberam homenagens a Renato Russo ("Soldados") e à cidade de São Paulo (com "Desordem", dos Titãs, e "Medo", do Cólera), e momentos de memória: "Há vinte e cinco anos, a gente não podia tocar essas mesmas músicas que estamos tocando aqui sem problema", disse o guitarrista antes de executar a ainda atual "Proteção", sob os olhares atentos da PM e da Guarda Civil Metropolitana, que passavam com protetores auriculares. Mas os melhores momentos do show ficaram para "Minha Renda", na qual Seabra fez um discurso a respeito do aspecto mercadológico da música, como quem parecia condenar revivals movidos apenas pelo dinheiro fácil, e o final apoteótico com "Até Quando Esperar?". Um show digno da segunda banda de Brasília.
Às vezes faz parte queimar a língua quando se assiste a uma fileira de shows seguidos: quando vi o nome Frejat na escalação da Virada, acreditei que ia ser um show morno, apenas para aquecer os ânimos pro que viria pela frente. Um grato engano, diga-se de passagem. Começando a 220V com "Maior Abandonado", Frejat mostrou mais uma vez como é que o Barão Vermelho se manteve vivo até hoje: com honestidade, cara limpa, energia e muita, mas muita empatia com o público. Foram poucas as horas às quais o cantor não foi acompanhado pela massa que assistia ao show, diga-se de passagem. Além das habituais visitas ao repertório do Barão com ("Bete Balanço", "Por Que a Gente é Assim?") e sem Cazuza ("Por Você", "Puro Êxtase", "Amor Meu Grande Amor"), ainda couberam composições de sua carreira solo ("Segredos") e espertíssimos covers. Aliás, nessa que foi a tarde dos covers ("Perdidos na Selva", "Bete Balanço" e "Exagerado" foram executadas duas vezes), Frejat soube escolher melhor: foi de Tim Maia ("Réu Confesso", "Você" e "Não Vou Ficar") e Rita Lee ("Jardins da Babilônia") a Legião Urbana ("Ainda É Cedo", "Mais Uma Vez") e Paralamas do Sucesso ("Caleidoscópio"). Pela surpresa, e pela sinceridade, ponto para o carioca como melhor show do dia.

Já o show da Blitz tinha cheiro, cara e som de revival. O que não foi exatamente um problema: todo mundo ali tinha plena consciência disso, incluindo a própria banda. Aliás, vale comentar a boa jogada de Evandro Mesquita: no lugar de chamar as vocalistas originais, convocou duas novas e deliciosas cantoras pra extasiar a plateia - e a diferença sonora foi pouca. O problema, aqui, foi a tentativa da banda de mostrar que pode (e não tem) fogo pra queimar, com o já clássico e infeliz momento "deixa a gente tocar a nossa música nova por favor", e algumas escolhas erradas de covers: qual é o sentido de tocar Bete Balanço após o autor da música tê-lo feito? E citar duas músicas diferentes de Bob Marley durante o show? Tem que ver isso aí... Mas tal como a Plebe Rude, quando os cariocas se dedicaram a mostrar o passado, ninguém podia fazer melhor que eles: "Você Não Soube Me Amar" e "A Dois Passos do Paraíso", pra ficar em só dois exemplos, foram acachapantes.

Sem sol, e com muitos efeitos luminosos e meia hora de atraso, o RPM veio ao palco em sua enésima volta desde o fim da banda, ainda nos anos 80. Abrindo com "Vida Real" - que deslocada da abertura do Big Brother soa muito bem - o quarteto paulistano trouxe à tona, em perfeito passeio tecnopop, o melhor e o pior da "década perdida": teclados, letras inteligentes (que ao mesmo tempo soam datadas e muito atuais), o público fiel; teclados, a empáfia de Paulo Ricardo, o senso oportunista (a nova música de trabalho da banda rima Vampirella com Cinderela e fala de vampiros: seu nome é "Crepúsculo"). Fato é que, em meio aos raios lasers que vinham do palco, a sensação de realmente presenciar a beatlemania que a banda viveu era muito forte em meio à massa sonora dos teclados de Luiz Schiavon em "Revoluções por Minuto" e "Alvorada Voraz". Estava tudo lá, até mesmo o momento delicado de "London London", a energia de "Flores Astrais", a citação de "Light My Fire" em "Rádio Pirata". Mas, ao mesmo tempo, no medley de "Rádio Pirata", foi broxante - com o perdão da palavra - ouvir PRM divulgar os próximos shows da banda, como quem não respeita o seu próprio passado. Ao final de "Olhar 43", que encerrou o show, o sentimento que ficou era o de que, mais uma vez, a grandiloquência da banda vai acabar engolindo qualquer tentativa de volta honesta - mesmo com todo o prognóstico a favor.

Olhar para o setlist desses quatro shows permite um panorama do rock nacional: os quatro, de alguma maneira, citaram Cazuza e Renato Russo, além de fazerem outras releituras de momentos importantes do gênero no Brasil. Faltou, porém, uma menção a Raul Seixas, o que de certo não chega a ser um grande problema. Outra coisa interessante é notar que, apesar de tudo, certas letras ainda fazem muito sentido hoje em dia, especialmente no sentido político ("Brasília", "Revoluções por Minuto"), musical ("Rádio Pirata", "Minha Renda") e social (a já citada cena durante "Proteção" envolvendo a PM), mesmo considerando que os tempos são outros. Talvez ainda vai demorar muito tempo, por exemplo, para que a sociedade perca o medo da polícia (dizem que ela existe pra proteger, mas ela pode te parar, ainda cantam os Titãs), mas perceber que se é possível cantar abertamente em praça pública, e ver o povo tomar o espaço urbano sem medo de ser assaltado, é ter noção de que, em algum momento, estamos no caminho certo. Talvez não seja o rock o culpado pela realização desses ideais - mas ele tem muita culpa no que diz respeito à mudança de cabeça de quem votou e motivou essas mudanças. Tenho ciência de que não sou o primeiro a dizer isso a respeito da Virada Cultural, mas como esta foi a minha primeira, perceber isso me deixa mais contente a respeito da rota que o país quer para si mesmo.


Todas as fotos por Bruno Capelas

Nenhum comentário:

Postar um comentário