14 de abr de 2011

Dois Pesos, Duas Medidas

Mais um texto da série "do fundo do baú": pra quem ainda não percebeu, tratam-se de textos que escrevi antigamente e ficaram espalhados por outros projetos e sites - como o Pop To The People e o Cinéfilos. A menção ao Teenage Fanclub hoje se faz interessante pelos boatos de que os escoceses virão ao Brasil para dois shows em maio. O texto a seguir foi publicado no Pop To The People, em maio de 2010. Boa leitura!

Uma das minhas expressões preferidas a respeito de injustiças do mundo não diz respeito à fome na África, nem às guerras do Oriente Médio, muito menos à má distribuição de renda ao redor do globo, mas sim a uma banda escocesa: "Se o mundo fosse justo, Teenage Fanclub tocaria no rádio de cinco em cinco minutos”. Você, leitor, entenderia o que eu digo se escutasse Grand Prix, disco que faz 15 anos em 2010 e é um perfeito exemplar do equilíbrio que a banda consegue estabelecer entre limpeza e distorção (clique para ver o clipe de “Sparky’s Dream”) em sua sonoridade. Tal aniversário é um dos motivos da existência desse texto. O outro, antes que você me pergunte, é o lançamento de Shadows, álbum mais recente do conjunto - e que, infelizmente, não faz jus nem à frase nem à idéia de equilíbrio acima citados.

O trio de Glasgow, formado por Gerard Love (baixo), Norman Blake (guitarra base) e Raymond McGinley (guitarra solo), desde o início de sua carreira colocou os ingredientes de sua música numa balança: de um lado, o peso das guitarras distorcidas e raivosas (que fizeram a cabeça de Kurt Cobain em trabalhos como Bandwagonesque); do outro, a leveza dos coros, arranjos de cordas e versos simples de amor. O fiel que a equilibra é justamente Grand Prix, que consegue sintetizar em sua essência o som do fã-clube adolescente – altamente radiofônico e acessível.

Herdeiros diretos da escola Beatles-Byrds-Big Star de artesões rock (leia-se: canções pop de três minutos com riffs ganchudos e letras cativantes), o que chama a atenção no som dos escoceses não é a inovação, mas sim a simplicidade - poucos artistas teriam a sinceridade de escrever um refrão cujo cerne é "o seu amor é o lugar de onde eu vim" sem soar piegas. No disco de 1995, essa marca aparece na declaração de amor de "About You", no consultório sentimental do trocadilho esperto de "Neil Jung", no "fundo oceano de melancolia" sugerido na agridoce "Mellow Doubt" e na beleza de versos como "I'd steal a car to drive you home" (de "Don't Look Back")

Falando assim, pode parecer que tudo o que você ouvir do Teenage Fanclub vai soar como "o disco perfeito que Lennon & McCartney nunca fizeram". De fato, algumas das canções acima citadas poderiam muito bem merecer esse rótulo. Mas não é o que acontece com Shadows. (Vale aqui dizer: os adjetivos das próximas linhas aparecem por comparação com os trabalhos anteriores do TFC, não com o panorama musical de hoje). Shadows, é, a princípio, um disco desequilibrado - seja no sentimento que envolve certas faixas, seja nos arranjos que massificam os pequenos detalhes (teclados, cordas, certos coros), como uma versão mal cuidada do ideal do Wall of Sound de Phil Spector.

O Teenage Fanclub é uma banda que, na maioria das vezes, soa como se tivesse injetado em si própria uma overdose de serotonina - certa vez, ela foi classificada como "insanamente feliz”. Um exemplo dessa alegria em Shadows é "Baby Lee”. Entretanto, a serotonina faz falta em alguns momentos, por exemplo, na faixa de abertura, "Sometimes I Don't Need to Believe in Anything", e em "Dark Clouds" – que trazem á tona uma melancolia que soa forçada e não natural no conjunto da obra do Teenage Fanclub. Em outras horas, percebe-se que há sim um brilho escondido - na romântica "When I Still Have Thee" ou no clima de "domingo ensolarado" que se estabelece em "Sweet Days Waiting" - mas que não atinge a superfície e torna-se opaco por detalhes de mixagem e produção. Além disso, falta aqui um bocado do tal peso muito utilizado no início da trajetória dos escoceses - as guitarras pouco aparecem, e quando o fazem, são em fraseados limpos, fazendo suspirar os amantes da (por vezes pouca, mas existente) sujeira de outrora.

Por favor, ignore o infame trocadilho: Shadows é um disco que não chega a fazer sombra nos melhores trabalhos do grupo de Glasgow. Porém, quando posto à luz da comparação com muito da música que se faz hoje, trata-se de um conjunto de canções que soa honesto e bonito - uma frase clichê a respeito disso poderia ser "um disco mediano do Teenage Fanclub ainda sim consegue ser um dos melhores do ano". Mas sinceramente? Se você já ouviu o trio, Shadows é um disco divertido, mas esquecível. Pra quem nunca tinha sequer ouvido falar de Teenage Fanclub, saiba apenas o seguinte: é só dar uma brecha que eles estão prontos para – parafraseando “Don’t Look Back” - roubar seu rádio e te fazer sorrir com a simplicidade de quem canta a vida com um sorriso no rosto e um coração apaixonado.

____

Algumas notas de rodapé, para terminar: Wall of Sound foi um estilo de mixagem musical inventado pelo produtor e compositor Phil Spector, e que marcou o início dos anos 60. Consistia em literalmente criar uma massa sonora na qual os instrumentos, embasados numa orquestra de cordas, não eram percebidos nos seus mínimos detalhes, mas sim como um som encorpado e “cheio”. Alguns sucessos marcados por esse estilo foram “Be My Baby”, com as Ronettes, “Unchained Melody” e “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’”, com os Righteous Brothers, e “Then He Kissed Me”, com os Crystals.

Power Pop: Um nome muito atribuído à tal “escola Beatles-Byrds-Big Star de artesões rock” é o rótulo “power pop”. Achei interessante citar isso porque, nos últimos tempos, diversas bandas coloridas e de qualidade duvidosa têm utilizado o termo em um significado diferente do original. O recém-finado Alex Chilton provavelmente deve estar se remexendo no túmulo por isso. Recuse imitações: power pop mesmo é o do Teenage Fanclub, do Big Star, do Badfinger... e não qualquer coisa com calças laranjas fluorescentes que geme a cada três segundos.

2 comentários:

  1. Bicho, Shadows é muito melhor que o Man-Made :)
    Quer dizer, isso no meu mundo. O que convenhamos: no final das contas não quer dizer rigorosamente nada haha

    Abração!

    ResponderExcluir
  2. Caramba Bruno, esse foi o texto que me fez voltar a escutar Teenage Fanclub depois de bastante tempo sem escuta-los.
    Depois dos terríveis tempos de vestibular, a música voltou a ser minha primeira opção lá por 2010, dai voltei a escutar tudo que sempre gostei e lembro bem desse texto no Pop to the People, não sabia que era seu! haha

    Então, valeu cara! :)

    P.S: Sou aquele amigo do Vini que assistiu o Planeta Terra com vcs. Decidi dar uma conferida no seu blog e tá de parabéns cara!

    ResponderExcluir