27 de jan de 2012

Uma visita à Queremos Miles!

Fui hoje ao SESC Pinheiros ver a exposição Queremos Miles!. Sabe aquela coisa de passar um tempão marcando, adiando, marcando, adiando, e quando você percebe a exposição já tá na última semana? Foi bem isso o que aconteceu comigo. Mas antes tarde do que nunca, já dizia o clichê, e mesmo com todo o cansaço, a gripe e a chuva fina e chata que caiu durante todo o dia em São Paulo, valeu muito a pena não voltar para casa direto do trabalho e dar uma passada no SESC, que fica pertinho da estação Faria Lima do Metrô.


Aliás, essa talvez tenha sido a primeira boa descoberta da noite: sempre ignorei o Pinheiros na minha lista de SESCs fáceis de chegar, sempre por achar que ele ficava em alguma biboca muito mal localizada. Ledo engano: em menos de 5 minutos a pé do metrô é possível atingir o local. Me surpreendi com a buniteza do prédio - embora não seja uma novidade de maneira alguma a rede SESC oferecer belas instalações. Antes da exposição, aproveitei para jantar por lá e não me arrependi - por menos de 15 reais, saí de barriga cheia, com direito a salada, bebida e sobremesa (um bolo de chocolate parecido com aqueles que a sua vó faz em dias de chuva). 

Antes de falar da mostra, é preciso elogiar a existência de entidades como o SESC - e o CCBB, que recebeu o evento no Rio de Janeiro, em 2011 - e sua iniciativa em disponibilizar atrações como essa de maneira gratuita para o público. Queremos Miles cobre de maneira quase impecável a carreira do trompetista americano, desde sua infância em St. Louis até seus últimos dias, nos anos 80, considerando a passagem de Miles pela banda de Charlie Parker, um dos pais do bebop, a invenção do cool jazz e a fusão com o rock inspirada por Jimi Hendrix.

Vale destacar a quantidade de itens de memorabilia coletados pela exposição, com fotos antigas da família de Miles, seu diploma em Odontologia (!), jaquetas que ele usou na época final de sua carreira e muitas partituras e bilhetes de anotações de Miles e alguns de seus principais parceiros, como o produtor Teo Macero e o pianista e arranjador Gil Evans - que colaborou com Miles em diversos discos, e em especial em um dos favoritos da casa,  Sketches of Spain, que inclui a arrasadora versão do trompetista para o "Concierto Aranjuez", do espanhol Joaquin Rodrigo. 

Impressionam ainda na mostra as exuberantes fotografias que recheiam as paredes do segundo andar do SESC Pinheiros, tiradas por craques das câmeras como Annie Leibovitz e Anton Corbjin - apenas para citar dois nomes mais famosos. Vistas como um todo, as imagens reforçam o poder do ícone Miles - que soube muito bem se aproveitar disso a partir dos anos 60, seja como símbolo dos direitos dos negros (dando umas voltas em sua Ferrari) ou chamando os holofotes de volta para si nos anos 80. Outro ponto alto são os vídeos de apresentações históricas como a do Festival da Ilha de Wight, em 1970, no qual a banda de Miles (que, à época, continha em suas fileiras Keith Jarrett, Chick Corea, Jack DeJohnette e o percussionista brasileiro Airto Moreira) se apresentou para cerca de 30 mil pessoas.

Entretanto, duas coisas me chamaram a atenção: em algumas partes - especialmente quando se fala de Kind of Blue e Bitches Brew, os dois maiores discos de Miles - fica um gostinho de quero mais; além disso, ou eu estava muito desatento, ou não há em local algum da exposição detalhes sobre a sua morte - nem onde, nem como, nem porquê. 

Senti ainda que faltou um pouco de didatismo por parte da curadoria em explicar alguns termos mais específicos do jazz. Não sou exatamente um apaixonado pelo gênero, mas conheço um pouco aqui e acolá, e em diversos momentos fiquei boiando ao ler os textos espalhados pela exposição. 

Entretanto, isso pode ser também um reflexo da diferença da "cultura musical" - isto é, o conhecimento mais teórico que se tem sobre música - da França, país da Citè de la Musique, instituição que organizou Queremos Miles!, e do Brasil. Para uma exposição que pretende aproximar o brasileiro da obra de um dos maiores músicos que já passaram pela terra (e faço essa hipérbole sem vergonha alguma), talvez fosse necessário deixar a coisa toda menos sofisticada.

O que não impede, é claro, de um iniciante completo em jazz e em Miles de aproveitar a mostra, que fica aberta até domingo, dia 29. Até sexta, das 10h30 às 21h30 - no final de semana, o horário é reduzido para das 10h30 às 18h30. Se você, caro leitor, não souber por onde começar, dou apenas um último conselho: enfie-se na salinha que mostra o disco Kind of Blue na íntegra e não saia de lá antes que o álbum acabe. Você não vai se arrepender.

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