30 de mai de 2012

Agito e Uso: Ângela Rô Rô no SESC Pinheiros












Uma das peculiaridades mais interessantes do circuito SESC (ao menos no estado de São Paulo) é a de incluir em sua programação grandes artistas que, de alguma maneira, estejam esquecidos. Trata-se de uma via de mão dupla: o artista se sente prestigiado, por tocar em um espaço com boa qualidade de som e de tratamento, e o público se lembra da importância daquela figura que está à sua frente. É a chave para que, muitas vezes, aconteçam grandes shows, quase sempre ignorados pela grande imprensa, preocupada com grandes festivais e o mainstream. Em 2011, dois dos meus shows favoritos do ano foram nessa receita: Evinha & Trio Esperança, no Vila Mariana, e Erasmo Carlos (vá lá, que não anda tão esquecido assim), em Santo André. E o que se viu no último final de semana, no SESC Pinheiros, foi mais um desses episódios, nas duas apresentações de Ângela Rô Rô.

Algumas características nesse tipo de apresentação são bem claras de entender. A primeira é um público sedento, mas que tem três pés atrás quanto ao que o artista pode apresentar. Com Ângela, essa desconfiança se manifestava principalmente em sua voz, que poderia estar detonada por anos e anos de vida desregrada. Pura bobagem. Ângela está afinada - e bem - e não perdeu a expressividade de outrora.


Essa expressividade foi vital para que o show funcionasse bem, em uma espécie de espetáculo 2 em 1. Ao mesmo tempo em que cantava grandes canções - suas, mas também releituras para Cole Porter ("Night and Day") e Jacques Brel ("Ne Me Quitte Pas", via Maysa), Ângela também destilava um humor sardônico incrível. "Parei de beber, de fumar, de lamber rodapé, mas não canso de gostar de mulher", brincou a artista em certo momento.  Ao longo do show, a cantora falou sobre o Veta Dilma, sobre sexo, sobre o Leblon, sobre mulheres ("só presta até os 36, porque depois do 37 é febre") e até sobre a ninfeta Mallu Magalhães ("infelizmente, o Camelo chegou primeiro"). Por certos momentos, valia até dizer que o stand-up de Ângela parecia recompensar mais que as canções, graças aos arranjos fuleiros executados apenas por um tecladista (definido pela cantora como "a orquestra de Sodoma e Gomorra").

A certa altura da apresentação, Ângela chama ao palco um convidado muito especial: Ney Matogrosso. Essa é outra tática dos shows de "retorno" (vou utilizar esse termo apenas pelo uso consagrado a partir do especial de Elvis para a TV americana): chamar personalidades de grande quilate para reapresentar e reinserir o veterano em cena. Juntos, os dois relembraram histórias do Rio dos anos 70, cantando "Balada da Arrasada" e "Não Há Cabeça", que você confere nesse post, e falaram sobre Cazuza. 

Posteriormente, Ângela sai de cena e dá lugar a Ney, que sozinho, canta canções que não valem nem meia música dos Secos & Molhados (à guisa de exceção, "Segredo", cantada por Dalva de Oliveira), mas que são tão enriquecidas com sua postura em palco que fazem até o mais insensível dos homens se comover. Um exemplo disso: ao cantar "Segredo", Ney pede uma cadeira. Se senta de frente para o público, com o peito junto ao encosto, e apenas cantando, mexendo os pés e o rosto, confere à música uma carga emocional de tirar o fôlego.



No bis, Ângela volta com Ney para cantar seu maior sucesso, "Amor Meu Grande Amor", não sem antes soltar outra blague: "olha só, a molecada hoje vem dizendo: 'moderna essa Ângela, cantando até Frejat!'". Fecham-se as cortinas, mas o público não arreda pé, e sob fortes aplausos, a cantora volta sozinha ao palco, para cantar "Malandragem". Batidíssima, a composição de Frejat e Cazuza parece renovada no SESC Pinheiros. É como se Rô Rô estivesse, sem querer, traçando uma linha evolutiva em seu show: ela parte de referências histórias da canção "dor-de-cotovelo", como Maysa e Cole Porter, passa por si e seus contemporâneos (Ney, Bethânia) e encerra o show mostrando o que pode ter sido sua herança para a música brasileira, seja no lado autoral, por Cazuza, seja como intérprete, mostrando Cássia Eller. 

É claro que poderia ter sido uma apresentação melhor - a diferença de qualidade dentro do repertório  (irregular) de Ângela Rô Rô é brutal, sendo que as canções de seu primeiro álbum, auto-intitulado, de 1979, são as suas melhores, como as dos três vídeos que ilustram esse texto, e também "Tola Foi Você". Entretanto, os dois shows desse final de semana são uma mostra da vitalidade dessa artista, que conta com a pungência e a dor em sua alma, sem perder o bom humor de costume. E assim como ela, outros tantos estão espalhados por aí, à espera de uma boa oportunidade para (re)mostrar seu trabalho e fazer o público se admirar. 

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