26 de mai de 2012

Lá e Cá




O adjetivo é horrível, mas vá lá: Lenine é o que pode se chamar de artista diferenciado dentro do cenário musical brasileiro. Primeiro, por sua posição quase confortável entre o mainstream e o independente - contratado de uma grande gravadora, Lenine age quase anticomercialmente, mas suas canções vivem aparecendo em trilhas de novelas e filmes. Segundo, por sua colocação bizarra nas prateleiras: ele pode ser encaixado dentro da "nova MPB", mas fica além e aquém disso. E, terceiro, por sua postura em respeito à pesquisa musical - Chão, seu último álbum, contém quase nada de percussão - e à qualidade do som. Entretanto, isso são coisas que ficam muito bem amarradas quando se pensa no estúdio. Mas e ao vivo, como é que tudo se resolve? Apresentando-se no SESC Santo André nessa sexta-feira, o cinquentenário pernambucano encontrou um equilíbrio entre suas propostas - não sem deixar de lado algumas de suas melhores ideias.

Com ingressos esgotados (coisa que há tempos não se via na unidade do ABC paulista), o show começou sem que um percentual razoável do público tivesse adentrado o espaço de eventos do SESC Santo André. Além disso, quem chegou ao local cerca de meia hora antes teve que deixar o carro na mão de flanelinhas nas ruas próximas - o estacionamento do SESC, com 300 vagas, ficou lotado por volta das 20h30. (mas vale dizer: exigir toda a infra-estrutura da organização do SESC, nesse caso específico, é pedir demais, pois os entornos do  prédio são mal providos).

No palco, Lenine era acompanhado apenas pelo guitarrista Junior Tolstoi e por seu filho Bruno, que se revezavam entre baixo, guitarras e no controle das programações - cantos de passarinhos, batidas de coração, samplers de vozes - que compensavam a falta de bateria/percussão nos arranjos. Em algumas partes do show, isso funciona bem, até porque a guitarra que Lenine toca é muito percussiva, fazendo jus àquele termo em inglês para guitarra base: "rhythm guitar". Essa característica, muito peculiar, é algo que o pernambucano herdou do violão de João Bosco, e serviu para dar força a composições médias de Lenine, como "Relampiano", "O Atirador" e "A Ponte".

Um dos problemas das canções de Lenine é a sua similaridade entre si, muitas vezes repetindo temas, padrões ou frases musicais. Em boa parte da apresentação, especialmente em seu miolo, o cantor deu preferência a alguns desses números, gerando um certo desconforto na plateia. Foi a hora que muita gente aproveitou para ir pegar uma cerveja ou fumar um cigarro.

Quando mostra seus grandes sucessos, porém, o resultado fica aquém do esperado. Em "Jack Soul Brasileiro", canção que se destaca por seu balanço, a ausência de bateria faz com que Lenine invista em uma versão mais quadrada do arranjo, sem o molho especial que fez muita gente dançar na época de lançamento de Na Pressão - ficou faltando ainda a inserção interessante de "Chiclete com Banana", de Gordurinha, dentro da canção. No bis, com "Paciência" e "Hoje Eu Quero Sair Só", a sensação foi similar: ao mesmo tempo que incitava a plateia a cantar, Lenine intervinha com frases da letra, criando um descompasso entre a voz do público e a sua própria. Eram dois momentos que tinham tudo para ser emocionantes, mas cuja força se esvaiu sem se entender o porquê.

Se por um lado é louvável que um artista evite os caminhos fáceis - outros hits como "Dois Olhos Negros" e "Aquilo Que Dá No Coração", ficaram de fora - da repetição, procurando sempre inovar, criando novos arranjos para suas canções e expandindo seus limites criativos; por outro, fica na cabeça aquele pensamento incômodo de que a proposta de Lenine é superior ao que acaba se vendo - e ouvindo em som surround - no palco. Um perfeito jogo de lá e cá, que termina em mediano um a um.

Fotos por Bruno Capelas

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