9 de ago de 2012

channel ORANGE

Colaboração da querida Andressa Monteiro para o Pergunte ao Pop sobre um dos melhores discos do ano. 

O cantor e compositor Frank Ocean, de 24 anos, faz parte de um time de artistas que estão caracterizando e moldando a nova cara do hip-hop. O alvoroço é tanto que alguns já classificam o gênero musical como o “novo rock”.  Porém, o pouco tempo de estrada não os impedem de viver grandes experiências transformadas em melodias e letras de produção sagaz, inteligente e original. 

Essa nova turma que conta com nomes como The Weeknd, A$AP Rocky ou Azealia Banks – citando ainda alguns de seus “irmãos mais velhos” ou “padrinhos”, como Drake, Kanye West e Jay-Z -, utilizam elementos novos e refrescantes, sem perderem a influência e similaridade de músicos consagrados durantes décadas, ou se preferir mestres; entre eles estão Stevie Wonder, Prince, Marvin Gaye e Sam Cooke. 

Quando Frank confessou no último dia 4 de julho que o primeiro amor da sua vida havia sido um homem, acabou gerando grande comoção da imprensa, artistas e fãs. Poderia ter sido um lance de marketing? Quem sabe. Se lembrarmos de sua participação no programa Late Night with Jimmy Fallon e a antecipação das vendas de seu primeiro disco no iTunes, podemos dizer que Ocean já sabe o que fazer e aonde ir para promover o seu trabalho e ser visto, o que não acontecia anteriormente. 

Antes do lançamento de seu mais recente álbum, channel ORANGE, o cantor nunca conseguiu reconhecimento por sua voz ou história, mesmo já tendo escrito músicas para John Legend, Beyoncé e Justin Bieber. Em 2010, graças à sua entrada no Odd Future (grupo de hip-hop liderado por Tyler, the Creator), tudo mudou. Frank ganhou visibilidade, e sua mixtape Nostalgia, Ultra, de 2011, trouxe músicas elogiadas como “Novacane” e “Swim Good”. Ele participou também de duas faixas do disco de Kanye West e Jay-Z, Watch the Throne, e foi aclamado pelo resultado de seu trabalho solo. Citando apenas dois exemplos, o jornal on-line Huffington Post chamou o menino de gênio, e um dos sites mais conhecidos de música no mundo, a Pitchfork, deu a nota 9.5 para Orange. 

Entre as 17 faixas de channel ORANGE, intercalam-se músicas, introduções e breves “pontes”, ligando e dando sentindo à produção como um todo. Boa parte das canções, incluindo “Bad Religion”, “Not Just Money” e “Crack Rock”, retratam a alucinante vida de usuários de crack, a violência urbana e o uso de armas e abordam temas como relacionamentos fadados ao fracasso, paixões intensas, família, dinheiro, luxo, fama e o abuso de drogas.

Isso pode se dever ao fato de Frank ter se mudado para Los Angeles, em 2005, depois que o estúdio em que trabalhava ter sido destruído pelo furacão Katrina. A vida em L.A., muitas vezes regrada a festas intensas, álcool e substâncias ilícitas, é retratada na deliciosa canção “Sweet Life”, na qual também é possível perceber sua relação afetiva com as praias, quando ele pergunta ao cantar: "Why see the world, when you got the beach?” 

Em “Pyramids”, que conta com solos de guitarra de John Mayer (presente também no trecho relaxante de blues em “White”), é possível lembrar-se facilmente de  “The Party & The After Party”, do The Weeknd. Em termos de narrativa e tempo de execução - ambas as canções têm quase dez minutos de duração - , as histórias se transformam em um enredo com riquíssimos detalhes, mas sem tornar a audição cansativa ou maçante. 

channel ORANGE ainda conta com Pharrel Williams no groove leve e descontraído de “Monks” e de Earl Sweetshirt  em “Super Rich Kids”, que brinca com a harmonia de “Bennie and the Jets”, de Elton John, para fazer mais uma crítica ao cotidiano fútil de boa parte da juventude californiana.


Mas a participação mais importante do disco é a de Andre 3000, uma das duas metades do Outkast. Na excelente “Pink Matter”, é impossível não se deixar levar pelos tons e timbres que transmitem com tanto sentimento e honestidade os prazeres, dores, indiferenças e insensibilidades de um envolvimento amoroso. O mesmo acontece nas canções “Forrest Gump” e “Pilot Jones”. channel ORANGE cria novas fronteiras unindo o melhor do R&B e do soul com elementos do rap, presentes nas referências e formação musical de Frank e nas dos músicos com quem ele decide trabalhar. 

Além disso, é necessária e imprescindível muita atitude e “banca” para ingressar em um universo por vezes tão competitivo, machista e masculinizado, o que não foi o bastante para abalar a confiança e nem segurança de Frank. Mesmo sendo um artista já inserido no mundo do hip-hop, o que o torna tão interessante, além de seu talento incontestável, é o fato de ele não ser necessariamente um rapper tradicional, com rimas rápidas ou “agressivas” como a maioria de seus companheiros de Odd Future. 

A popularidade, aceitação e apelo do cantor não vêm à toa; ele fala o que nós (incluindo todas as faixas etárias, raça e sexo) queremos ouvir e sentir, mergulhando de cabeça em todas as experiências que só os 20 e poucos anos oferecem. A autenticidade nunca foi tão fácil de ser encontrada. Basta colocar channel ORANGE no som do seu carro ou de seu mp3/ipod e viver, para depois cantar, contar e encontrar os seus sentimentos em uma paisagem afrodisíaca ou cidade urbana caótica mais próxima.

Andressa Monteiro (siga @monteiroac) é jornalista e assina o blog Goldfish Memory, além de colaborar ocasionalmente para o Scream & Yell - que foi por onde a conheci. Dividimos juntos (e sem nos conhecer) a divertida cobertura do Sónar São Paulo 2012

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