21 de ago de 2012

Embarque nessse Carrossel...

No fim de junho, escrevi (junto com o Leandro Carabet) para um jornal da faculdade, o Claro!, uma matéria sobre o revival dos anos 90 que começa a rolar em várias áreas da cultura. Acho que vale dividi-la com vocês. 


Se você leu as duas últimas páginas com saudade [a página anterior, no caso, era um infográfico cheio de memorabilia dos anos 90] e queria que aquelas coisas legais dos anos 90 voltassem, pode ficar tranquilo, pois alguns dos seus desejos foram realizados. Calma, calma, nós não pegamos uma máquina do tempo de volta a 1991. O que acontece, na verdade, é que hoje se pode ver, em alguns setores da cultura nacional (e internacional), algo que parece um retorno a vinte anos atrás.

O sertanejo, gênero que fez muito sucesso naquela década com Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano, hoje está mais forte do que nunca. Na televisão, o SBT investe num remake de “Carrossel” e obtém bons índices de audiência. E na noite paulistana começam a pipocar festas que têm como ideal relembrar os bons tempos dos anos 90 - seja tocando lados B do grunge e do britpop ou fazendo todo mundo dançar na boquinha da garrafa.

“Diz que é verdade, que tem saudade...”
Em termos de mercado, nunca a música que vem “da roça” fez tanto barulho. Nas paradas de sucesso dos anos 90, era comum ver um ou dois clássicos do gênero entre as 10 mais tocadas pelas rádios brasileiras. Em 2011, nada menos do que quatro canções ocuparam posições entre as mais ouvidas no dia do país. Além disso, cantores como Michel Teló e Gusttavo Lima têm levado o sertanejo para fora do Brasil - “Ai Se eu Te Pego”, do primeiro, ocupou o topo das paradas em 16 países diferentes. Entretanto, algo parece ter mudado de lá para cá, do fio de cabelo preso no paletó ao “tchê tchê rê rê”.

Para Marília Neves, colunista do blog iG Sertanejo, a maior diferença está nas letras. “As duplas dos anos 90 cantavam um amor sofrido, mas hoje os caras não estão nem aí. As músicas falam de ir para a balada, beber e curtir a noite”. André Piunti, do Universo Sertanejo, vai na mesma direção: “Hoje, o sertanejo canta a farra, e as músicas são mais animadas”.

A mistura de ritmos como o funk e o eletrônico e a aproximação com o universo urbano são outras duas características importantes do “sertanejo universitário”, nome que o estilo recebe hoje. Entretanto, é difícil falar em revival ou onda de sucesso da música que vem do interior do país. “Falar em onda é complicado, porque há pelo menos cinco anos, o mercado de shows e festas sertanejas está bastante aquecido”, crê Piunti. “Vejo uma evolução do gênero, com mudanças. Hoje, poucas duplas fazem moda de viola como antigamente”, avalia Marília.

Mas a jornalista faz uma ressalva importante: “Se você vai numa balada, as músicas que todo mundo canta são as mais antigas. Ninguém aguenta mais “Ai, Se Eu Te Pego”. No fim, após tanta invenção, o que permanece é o sertanejo de raiz”.

(Não) Cala a boca, Magda!
Uma volta repentina aos anos 90 também pode ser sentida na televisão. Quem viaja no tempo com o controle remoto, pode acabar se esbarrando, por exemplo, com a inesquecível Magda do seriado “Sai de baixo” de 1996. A personagem, que insistentemente era solicitada para que “calasse a boca”, reaparece mais falante do que nunca desde a estreia em 2010 do bem sucedido canal Viva, da Globosat. Pois é, ela não conseguiu, como pretendia, sumir da “alface” da terra.

O Viva vem se consolidando na audiência e, segundo dados do Ibope, já figura entre os dez canais a cabo mais assistidos por mulheres, com uma programação marcada, sobretudo, por reprises. Nesse mesmo canal, outros sucessos dos anos 90 ressurgiram, como as novelas “Por Amor”, “Rei do Gado” e “Barriga de Aluguel” e, os mais saudosos têm a oportunidade de rever diariamente a cantora Sandy como protagonista de um seriado adolescente, quando ainda ninguém conhecia o seu lado devassa.

Mudando de canal, outra programa que está surpreendendo pela recepção é o remake brasileiro de Carrossel, novela mexicana que na primeira exibição em 1991, conseguiu superar por vezes a audiência do próprio Jornal Nacional. Na nova versão, Maria Joaquina, garota rica e esnobe, mostra como a questão do preconceito, trabalhada na primeira edição, continua um tema atual no dia a dia das crianças – a diferença é que agora ela se exibe com um iPad.

Para o repórter e crítico de TV do UOL Maurício Stycer, o sucesso dos alunos da “querida professora Helena” está ligado a uma busca, por parte do público, por uma programação mais simples, fácil, eventualmente simplória, temperada pela emoção.

Barrados no baile - ou não
Na década passada, ficaram famosas algumas balada que lembravam os anos 80, como a paulistana Trash 80’s e a carioca Ploc. Foi esperando que surgissem as festas anos 90 que os amigos João Pedro Ramos, Denis Romani e Pedro “Metamurphy” criaram a “Tiger Robocop 90”, especialista em trazer de volta grandes sucessos da década. “Dividimos a noite por blocos, começando com o rock, depois indo para o pop, até chegar nas músicas mais trash, como axé, pagode e ‘Macarena’. A parte legal é que todo mundo que vai na festa dança tudo, seja um cabeludo fã de metal ou uma menina que curte Spice Girls”, conta João Pedro.

A balada “Cromo 90”, que rola no Neu! Club, na Barra Funda, revive o rock alternativo dos anos 90, de bandas como Pixies, Pavement e Weezer. “Quando começamos, a ideia da festa era juntar os amigos e ouvir a trilha sonora da nossa adolescência. É uma glamourização de uma cena independente, talvez”, conta o jornalista Amauri Gonzo, organizador da festa.

Vai durar?
Há uma onda de saudade sim pelos anos 90 - esta matéria que você lê é prova viva disso, caro leitor. Para João Pedro Ramos, “a nostalgia tem um timing. Todo mundo gosta de se lembrar como era quando jovem”. Isso, segundo Maurício Stycer, “não está relacionado a um revival específico dos anos 90, mas a um prazer mais geral, proporcionado pela cultura, semelhante ao de rever filmes ou reler livros.” Amauri, por sua vez, aponta que “as pessoas estão se cansando rápido demais das coisas. Daqui a dois ou três anos, quando todo mundo já estiver enjoado de ouvir falar nos anos 1990, não duvido que surja uma festa ‘revival 2000’, tocando Strokes e outras coisas assim”.

Ilustração por Renata Hirota

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