21 de jan de 2014

Melhores 2013: Músicas Internacionais

2013 foi um ano difícil. Complexo. Longo. Mas talvez por tudo isso, um ano interessantíssimo - tanto no Brasil como lá fora. A safra da música de 2013 pode ter sido extremamente pop, mais que em anos anteriores (compare com as listas de 2012 e 2011 e confirme o que eu estou dizendo), mas isso não é demérito nenhum. Além disso, foi um ano de grandes retornos (Bowie, QOTSA, Nick Cave, Macca) e onde partes diferentes do globo terrestre apareceram com galhardia (Lisboa, Barcelona e a terra dos robôs do Daft Punk mandam um abraço).  A seguir, o Pergunte ao Pop apresenta as 20 melhores canções internacionais de 2013. Se é pra acontecer, pois que seja agora.

1º - "Seja Agora", Deolinda

Talvez sejam razões extremamente pessoais que me levam a colocar "Seja Agora" no primeiro lugar desta lista. Afinal, é difícil separar o que foi o meu 2013 da experiência de ter morado em Portugal durante alguns meses, e de ver a vida mudar tantas vezes nesse ano (ir, voltar, começar um novo emprego, encarar o amor de frente), e nenhuma banda representou melhor tantas guinadas de maneira tão positiva quanto o Deolinda. Mas também esta é uma decisão política, por assim dizer: o mundo hoje produz música da melhor qualidade, e muitas vezes ela vem de lugares inesperados ou fora do eixo anglo-saxônico - e é o caso de Portugal (em breve, publicamos uma lista com as melhores canções lusitanas da temporada) e ainda mais do Deolinda, que no seu último disco resolveu ampliar fronteiras e abraçar um mundo cada vez mais pequenino. Como me disse Pedro da Silva Martins, em entrevista que você pode ler em um link aí abaixo, ""Seja Agora” é sobre a urgência de amar, de estarmos com alguém, de não adiarmos aquilo que desejamos por questões alheias", uma bandeira que vale para qualquer plataforma: de um novo amor a um novo País. Que 2014 consiga ser assim como foi 2013 - porque, no fim, "vai ser tão bonito descobrir que quem manda é a vontade". 

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2º - "Get Lucky", Daft Punk, Nile Rodgers & Pharrell Williams

Se "Seja Agora" foi o meu hit pessoal de 2013, é impossível negar que "Get Lucky" foi o grande sucesso do ano. Não houve festinha, rádio ou cidade que não tivesse se contagiado com a guitarra suingadíssima de Nile Rodgers e os vocais espertos de Pharrell Williams, responsáveis por uns 70% do quanto essa música é legal. Além disso, botou na mesma rodinha de dança os tiozões que ouvem Alpha FM e sentem saudade dos embalos de sábado à noite e os hipsters fãs do grupo de "One More Time" e "Around the World", tirando do sarcófago a ideia de que a discothèque é brega, transformando-a numa fênix musical. Viva!

3º - "Hannah Hunt", Vampire Weekend

Modern Vampires of the City, o disco, mostra um Vampire Weekend explorando novas fronteiras musicais em seu universo entre Paul Simon, reggae e bares do Brooklyn. Há espaço, por exemplo, para um quase surf-rock na incrível "Diane Young", que por pouco não entrou nessa lista, mas o melhor momento do álbum se dá com uma balada quase minimalista e sentimental chamada "Hannah Hunt". Inspirada na namorada de Christopher Owens (o homem do Girls), poderia ser uma letra sobre uma simples viagem até Phoenix, mas que ganha contornos de grande obra em seu refrão: "Though we live on the US dollar/you and me, we got our own sense of time", que mira tanto as lógicas absurdas que só quem está dentro de um relacionamento entende (e consegue tornar vivência) quanto a própria ideia de se ser jovem nos anos 10 e, apesar de tudo, continuar vivendo e acreditando. 

4º - "Mad Sounds", Arctic Monkeys

AM, o novo trabalho do Arctic Monkeys, é cheio de canções groovadas, maiúsculas, perfeitas para encher a pista quando já se está meio alto ou para sair da balada. "Mad Sounds", parece quase mais uma sobra de Suck it and See, mas serve como lado-B perfeito para as desventuras noturnas de Alex Turner: trilha sonora para a caminhada ao nascer do sol, ela flagra o momento em que já não dá mais para perceber quando as coisas deram errado e, à beira do precipício, um "lalala" vem para salvar tudo, fazer o corpo se mexer e se agitar, ir em frente. Com ecos de anos 50 e das melhores baladas solares do Velvet Underground, "Mad Sounds" é, ao final de tudo, uma grande ode à música pop - e uma mostra que, mesmo voltando à pós-adolescência, Alex Turner ainda é o melhor letrista de sua geração.

5º - "Royals", Lorde

Lorde é a melhor coisa produzida na Nova Zelândia desde a saga Senhor dos Anéis. Piadas prontas à parte, a garota de apenas 16 anos fez todo mundo parar pra pensar ao menos uma vez quando se tornou uma estrela pop negando justamente o mundo da ostentação, onde toda canção é sobre "Gold Teeth, Grey Goose, tropeçar no banheiro, manchas de sangue e vestidos de baile". "Mas essa não é a nossa sorte/ E nós curtimos uma vida diferente", diz a garota (em péssima tradução literal deste blog), sob uma base límpida e handclaps, em uma batida que poderia lembrar Lana del Rey caso não apostasse em uma produção tão simples. O resto do disco da garota, Pure Heroine, é apenas a repetição da mesma ideia em mais umas dez faixas, mas isso não impede que a gente queira deixá-la ser nossa abelha rainha por uma vez mais e viver a fantasia. 

6º - "The Stars (Are Out Tonight)", David Bowie

O rei está vivo, vida longa ao rei. É até engraçado colocar David Bowie em uma lista de melhores do ano depois de passar longas temporadas dividido entre a) dar força ao mito que o camaleão estava morto b) acreditar que eu nunca veria o lançamento de um disco do homem. Mas vi, e que grande disco é The Next Day, resgatando o melhor da fase berlinense de Bowie. "The Stars (Are Out Tonight)", além do clipe incrível com Tilda Swinton, merece um lugar nessa lista pelos riffs espertos de guitarra de Gerry Leonard e pelo lembrete com luva de pelica que Bowie dá aos fãs e inimigos: "As estrelas nunca estão dormindo".


7º - "Musiquinha", Deolinda

Segundo single de Mundo Pequenino, "Musiquinha" é o contraponto pessimista de "Seja Agora": se a segunda é uma grande canção de amor, a primeira parte da premissa de que "isto já não anda" e tenta colocar os corpos para se agitarem, como o começo de qualquer coisa - uma perspectiva interessante ao se lembrar da crise cada vez mais dura por que passa Portugal. Além disso, "Musiquinha" exemplifica o passo à frente dado pela banda portuguesa em seu último trabalho, desprendendo-se apenas do fado pop para apostar em percussões e balanços, tudo isso escorado no charme esperto de Ana Bacalhau, uma das poucas mulheres com a malícia e a inocência suficiente para cantar uma letra com um refrão que diz "Põe a musiquinha e abana esta anca". De Lisboa para o mundo. 

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8º - "This Sullen Welsh Heart", Manic Street Preachers & Lucy Rose

É comovente ver uma banda que passou a vida inteira atirando levantando suas armas - como eles mesmos dizem, "I can't fight this war anymore". É o que acontece com o Manic Street Preachers nesta "This Sullen Welsh Heart", que abre o triste e melancólico Rewind the Film, com direito a um belo dueto vocal entre o esganiçado James Dean Bradfield e a doce Lucy Rose. Citando a si mesmos (referenciando "If You Tolerate This.."), os galeses mostram que a batalha pode ter sido perdida ("the hating half of me has won the battle easily), mas que seu coração nunca desistirá. Bonito.

9º - "Save Us", Paul McCartney

Toda vez que Paul McCartney lança um disco novo, aparece uma pergunta: por que o mundo precisa de um disco novo de Macca? O que ele ainda tem a oferecer? No caso de New, lançado em outubro, muita coisa, e "Save Us", com seu ritmo acelerado e sua letra sobre um relacionamento que promete se despedaçar a não ser pela força de vontade, é um dos grandes sinais disso. Promete ser um grande momento ao vivo.


10º - "Little Black Dress", One Direction

Ninguém esperava, mas ninguém esperava por essa mesmo. O One Direction - a maior boy-band da geração '10 - já tinha feito melodias ganchudas aqui e ali ("What Makes You Beautiful", ou "a música do Nissim Ourfali" mostrava isso em 2012), mas nada que pudesse prever "Little Black Dress", um powerpop que brinca com riffs à la Big Star e farofice na melhor tradição do Cheap Trick. Tão potente que até parece saído das mãos de Adam Schlesinger, o homem que fez "Stacy's Mom", "That Thing You Do" e "Way Back Into Love". Fino. 

11º - "Lost and Found", American Thread

Saídos diretamente de um boteco sujo de Boston, os rapazes do American Thread fizeram uma das estreias mais interessantes de 2013 com um disco que recende a cerveja barata, conhaque, Bruce Springsteen, o lado mais country do Wilco, R.E.M. e corações partidos - tente não se entristecer quando o vocalista Brendan Ahern, no refrão dessa bela balada, conclui: "sometimes we stick around/sometimes we end up lost and found". There, there, 'mate. 

12º - "Push the Sky Away", Nick Cave & The Bad Seeds

O retorno de Nick Cave e os Bad Seeds depois de cinco anos sem gravar não deixa em nada a dever para o melhor da carreira do bardo australiano. "Push the Sky Away" é um grande exemplo disso: espécie de anti-prece rock'n roll, a canção dá nome e encerra dignamente o disco lançado neste 2013. Os versos finais dão a letra: "And some people/Say it's just rock'n roll/Oh, but it gets you/Right down to your soul". 

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13º - "Stoned and Starving", Parquet Courts

Inspiradíssimos em Pavement (de maneira que até mesmo Stephen Malkmus achou que era sua banda tocando no rádio quando ouviu os rapazes), os caras do Parquet Courts vêm do Brooklyn e fazem um hino (hipster-magrelo, é claro) à larica, àquela hora da noite que (dizem) já se fumou tanta maconha que qualquer coisa serve. Tudo isso debaixo de uma guitarreira tão débil quanto exata, que se encerra em uma bonita microfonia. Noventice pura, mas bacanuda. 

14º - "The Wire", HAIM

Pegue três irmãs educadas com classic rock desde a tenra infância, adicione pitadas de produção californiana no melhor estilo Fleetwood Mac e uma colher de sopa do feminismo a la Lena Dunham, leve ao fogo junto com pitadas do country moderno de Shania Twain e espere ferver. Essa é "The Wire", uma das canções pop mais deliciosas de 2013. 

15º - "Teresa Rampell", Manel

Grata surpresa descoberta no Optimus Primavera Sound de 2013, os barceloneses do Manel fazem um pop-rock muitíssimo bem azeitado (e gostoso de ver ao vivo). "Teresa Rampell", single do disco Atletes, baixin de l'escenari, narra uma jornada urbana pela capital da Catalunha que se encerra na festa da personagem do título, ao longo de 5 minutos e meio. Além da parte excêntrica de ser cantada em catalão - uma das línguas mais inusitadas surgidas a partir do latim - "Teresa" merece seu espaço aqui pelo seu bom refrão, que prega: "O amor retorna, Teresa, e eu já diria que você começa a perceber/que é como um náufrago que resolveu experimentar a água salgada". 

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16º - "I Sat By The Ocean", Queens of the Stone Age

Seis anos separam "I Sat By The Ocean" do último disco do Queens of the Stone Age, Era Vulgaris, lançado em 2006, mas a espera valeu a pena: a faixa tem algumas das guitarras mais sexy já feitas por Josh Homme (e isso não é pouco) e é o melhor momento de ...Like Clockwork, um disco que, apesar das altas expectativas, foi uma boa trilha sonora em 2013. 

17º - "I Love It", Icona Pop & Charlie XCX

Cremosidade pop e inconsequência. Essa é a palavra de ordem de "I Love It", um hit tão descartável quanto delicioso, perfeito pra bombar pistas e cheio de frases que poderiam ser "about me"s de garotas descoladas no orkut, como "I crashed my car into the bridge/I don't care", "You're on a different road, I'm in the Milky Way/You want me down on Earth, but I am up in space" ou ainda (a minha favorita) "You're from the 70's, but I'm a 90's bitch".

18º - "I'm Not Sayin'", The Replacements

Reuniões de bandas sempre parecem conversa fiada. Mas os Replacements voltaram por um bom motivo: arrecadar fundos para ajudar o amigo doente Slim Dunlap, que participou da banda no final dos anos 1980. Songs for Slim, o EP que a banda gravou neste 2013, não tem nada demais, em cinco covers obscuras, mas "I'm Not Sayin'" é uma pérola escondida no repertório do cantor country Gordon Lightfoot, e que, recuperada pelo gênio de Paul Westerberg, caberia facilmente em um disco como Tim. Ainda queima a esperança.


19º - "The Weight", Mikal Cronin

O outro hit power pop de 2013 vem pelas mãos de Mikal Cronin, um cabeludo com cara de maluco e voz de moleque recém-saído da adolescência. "The Weight", ao melhor estilo maccartiano, muda de andamentos e de velocidade como uma montanha-russa divertidíssima - que nega a letra que prega por uma zona de conforto: "I’ve been starting over for a long time/I’m not ready for the second wave, the weight of seeing through". Fique de olho.

20º - "Making Myths", Roddy Woomble

O homem à frente do Idlewild, Roddy Woomble, sempre se saiu melhor em carreira solo - é o caso do grande My Secret is My Silence, de 2006, e também de Listen to Keep, ambos alguns furos acima da banda escocesa que tornou o rapaz conhecido. "Making Myths" é a principal razão para tal: sobre uma base de violões folk (que também se encaixariam nos Decemberists), Woomble fala sobre a força da música, e revela: "Fazer mitos é mais importante para mim que ter objetivos", em uma verdadeira carta de intenções sobre os dias de hoje.

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