24 de set de 2012

Direto de Portugal: Festival Nova Música

Meu companheiro de aventuras no curso de jornalismo da ECA, Victor Francisco Ferreira deixou seu apartamento de um dormitório no Butantã por um semestre para se embrenhar na querida terrinha de Portugal, estudando (e se divertindo bastante) na Universidade Nova de Lisboa. O que publico a seguir é um relato do querido Victão, como o chamamos cá, sobre o Festival Nova Música, que reuniu bandas portuguesas no último final de semana. Entre elas, Os Pontos Negros, de quem já falei neste espaço. Com a palavra, Victão: 

Jonatas Pires e Filipe Sousa, d'Os Pontos Negros
Minha primeira sexta-feira em Lisboa não começou muito movimentada. Três partidas de PES, o trabalho de montar espetinhos (ou espetadas) para o churrasco organizado pelos moradores da Residência Alfredo de Sousa e, claro, o churrasco. Foram estas as atividades que prepararam meu dia para o Festival Nova Música, que ocorreu no Campus de Campolide, próximo à estação de metrô (ou metro) São Sebastião, em Lisboa.

Neste mesmo espaço há algumas faculdades da Universidade Nova de Lisboa, como a Faculdade de Direito e a Faculdade de Economia, e também a Residência Universitária Alfredo de Sousa, onde moro. À noite, fui com meus colegas de Residência, muitos deles brasileiros, ao palco Antena 3, dedicado a grupos de rock contemporâneo português. Perdi os shows das bandas The Kafkas e Ciclo Preparatório. Cheguei apenas para a terceira apresentação, de Biancard.

Por ser o único no grupo realmente interessado em ouvir os shows (ou concertos), principalmente o d’Os Pontos Negros, fui para a grade conferir de perto as apresentações. O público era pequeno, insuficiente para cobrir satisfatoriamente o gramado cercado para o evento.

Biancard
O abuso dos óculos escuros, dos clichês rock and roll e das frases em inglês marcaram o Biancard, que conta com David Pires, d’Os Pontos Negros, na bateria. Em alguns momentos, fiquei mais intrigado em tentar relacionar as feições familiares do vocalista do que em curtir o som. Ele descia do palco, vinha até a grade trazendo o microfone para o público cantar junto uma das canções.

Fim de show. Com o chopp (ou imperial) a um euro e os amplos espaços próximos ao palco, era possível escapar para buscar uma gelada antes da apresentação seguinte. Enquanto aguardo, vem a revelação: Biancard é a cara do apresentador de TV João Kléber. Aquele mesmo, famoso pelas pegadinhas do “Quê quê o quêêê?” que embalaram as tardes da Rede TV no início dos anos 2000.

Depois de pouco tempo, subiram ao palco os Capitão Fausto. Bela surpresa. A canção de abertura, instrumental e repleta de quebras de ritmos, lembrou-me o grupo pernambucano Mombojó, mas com mais guitarras. Apesar de longa e, em certo ponto previsível, foi uma boa abertura. Em seguida veio um combo de canções indie, cheias de gritinhos animados e bons arranjos, como “A Febre” e “Sobremesa”, ambas do disco Gazela, lançado em 2011.


As canções simples e animadas convidaram o já mais numeroso público a cantar junto durante quase todo o show. Ponto para os Capitão Fausto, que são formados por Tomás Wallenstein (guitarra e vocais), Manuel Palha (guitarra), Francisco Ferreira (teclados), Domingos Coimbra (baixo) e Salvador Seabra (bateria).

A certa altura, David Pires (de novo), baterista d’Os Pontos Negros, surgiu atrás do palco e perguntou ao dono das baquetas do Capitão Fausto, Salvador Seabra: “posso?”. O que se seguiu foi um dos pontos altos do show. David juntou-se a Wallenstein, Coimbra e Seabra, todos na bateria e percussões, ao melhor estilo “Outsiders”, um dos momentos altos dos shows da banda escocesa Franz Ferdinand. Quando deixaram o palco, à meia noite e meia, devo dizer que os Capitão Fausto já haviam conseguido pelo menos mais um fã.

Após apreciar mais uma imperial e presenciar a busca frustrada de uma garota (ou gaja) por suas chaves de casa perdidas, havia chegado a hora de ver Os Pontos Negros. Não posso negar que minha expectativa era alta. Havia prometido a mim mesmo e ao amigo Bruno Capelas, dono deste espaço, que assistiria aos gajos de Queluz cá em Portugal. Precisava fazer isto. Mas não achei que seria ao lado de casa e de graça. A banda abriu o show tocando “Magnífico Material Inútil”, canção homônima ao disco de estreia do grupo. Em seguida vieram “Sub-Zero”, do Pequeno Almoço Continental, e “Senna”, do Soba Lobi.


A quarta canção, “Conto de Fadas de Sintra a Lisboa”, mostrou a força d’Os Pontos Negros junto ao público português, que cantou a música inteira junto. Seguiram “Eu + Eu = Ninguém”, próximo single do grupo, e “O Homem Bom”.

Jónatas Pires e Filipe Sousa, guitarristas e vocalistas do grupo, não fizeram questão de demonstram muita simpatia, mas, tendo dois ex-alunos da Nova na banda, questionaram: “Vamos falar do que interessa. Política. Qual a posição desta Universidade? A Nova está à direita ou à esquerda?”, indagou Filipe.

Jónatas Pires
Ao som de “Rei Bã” iniciou-se no gramado uma roda punk (não sei como chamam isto em Portugal) que durou até o final da apresentação e ameaçou derrubar a grade.

Após “Duro de Ouvido”,” Tempos de Glória”, “Gabriela” e “Negrume”, a apresentação foi encerrada com "Armada de Pau", cantada pelo público e também pelos roadies. “Ser bom português é morrer na casa de Fado. É ter um casus belli com o vizinho do lado. E quando vierem as tropas afundar-nos nau a nau, só nos restará combater com uma armada de pau”. 

O show foi curto, simples e direto. Senti falta de algumas canções pop como “Tudo Floresce” e “Lisboa, não passas deste inverno”. Subi a ladeira do gramado sozinho. Muitos do grupo que foi comigo até lá já tinha ido curtir outro programa noturno lisboeta. Eu preferi ficar ali. E não me arrependo.

Todas as fotos por Victor Francisco Ferreira

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