7 de out de 2012

Entrevista: SILVA

No final de agosto, conversei com o cantor Lúcio Silva, mais conhecido como SILVA, para o iG Jovem. Falarmos sobre a carreira dele até aquele momento e o disco que ele está lançando agora em outubro, Claridão. Feito na casa do cantor, o álbum contará com 12 faixas, sendo 7 delas inéditas, com produção e distribuição do Slap, selo da gravadora Som Livre dedicado a novos (e na maior parte das vezes, interessantes) artistas. 

Só para ter uma ideia, o Slap também foi responsável por Feito pra acabar, do Marcelo Jeneci, e Anormal, do Jonas Sá, um disco que pouca gente ouviu, mas que merece muita atenção por seus refrões pop bem gostosos. Mas voltemos ao SILVA: descobri o som dele há pouco tempo, depois que amigos insistiram bastante para que eu prestasse atenção no EP que o cara lançou no ano passado.



E bastaram poucas audições para que eu me apaixonasse pelas letras do cara e pelas incríveis texturas sonoras que ele usa em suas canções, misturando sintetizadores e baterias eletrônicas com arranjos de cordas e sua voz, econômica, mas muito bem postada com a mensagem que quer passar. E preste atenção em “Imergir”, uma das mais bonitas canções de desamor escritas no Brasil nos últimos, sei lá, cinco anos. 

O que publico aqui – e espero que vocês leiam - é uma versão sem cortes do que conversamos por telefone, numa ligação São Paulo-Vitória, em uma tarde modorrenta de calor por aqui. Com a palavra, SILVA. 


Ao contrário de boa parte dos artistas da sua geração, você vai lançar um disco por uma gravadora grande, a Som Livre. Isso muda alguma coisa para você? 
SILVA: É algo que eu ainda não sei como é, na verdade, porque o disco ainda não saiu. Até ele ser lançado, não faço ideia se ter uma gravadora ao lado vai ser melhor ou pior. Eu sou companheiro de gravadora do Michel Teló e do Luan Santana. Eles vendem milhões de discos e são super populares, e aí venho eu, com um som que eu não sei se as pessoas vão querer ouvir. Para mim, tudo ainda é uma surpresa. Assinei o contrato porque tinha condições legais para mim, e porque me deram liberdade de produção. Ninguém me mandou gravar no estúdio tal, com o produtor fulano de tal. Pude fazer as músicas em casa, que para eles é o que estava dando certo até agora. 

As músicas do EP que você gravou no ano passado estarão no disco?
Sim. Quando eu assinei com a gravadora, eles acharam que seria bacana colocar aquelas canções no disco. Vão ser as mesmas gravações, mas elas passaram por novas mixagens. 

E o que você acha disso?
Quando comecei a compor o disco, em janeiro, eu estava imerso em música eletrônica, e compus várias músicas para o disco com essas característica. Com as músicas do EP, o álbum não deve ir tão fundo nas minhas, digamos, novas influências. Mas o disco tem bastante presença de sintetizadores, e deve sair em setembro. Mandamos para a fábrica na semana passada. 

Como você começou a tocar?
Sempre tive contato com a música, porque minha mãe é professora. Estudo violino desde os seis anos, e estudei muito piano também, mas não pensava em ser músico profissionalmente até a adolescência. Quando fiquei mais velho, comecei a juntar uma grana porque queria estudar inglês lá fora e morar um tempo em outro país. Em 2009, fui para a Irlanda, no meio da crise econômica, e o único trabalho que apareceu para mim foi tocar. A minha música teve que me sustentar. Foi lá que eu comecei esse projeto: toda noite ia para casa e gravava ideias no meu Mac. Quando voltei ao Brasil, tinha equipamentos legais - placas de som, microfones, sintetizadores - para fazer minhas músicas em casa.



E da volta para o Brasil até o lançamento do seu EP, quanto tempo demorou?
Eu voltei em 2010, e comecei a rascunhar esse trabalho na mesma época. No meio das gravações, me mudei para o Rio de Janeiro, e acabei segurando o trabalho até o finzinho de 2011. Quando lancei, algumas pessoas do Rio começaram a divulgar meu disco, e o trabalho meio que foi andando sozinho até hoje. 

De onde veio o nome SILVA? 
Eu ia colocar um nome diferente no projeto, mas tudo que eu escolhia soava pretensioso ou raso. Resolvi usar meu nome do meio. Em último caso, se ninguém gostasse do nome, eu podia alegar que era meu mesmo. Além disso, Silva é o sobrenome que veio do meu avô materno, o cara que me deu meu primeiro violino e que sempre me apoiou em relação à música. Ficou sendo uma homenagem a ele também. 

As suas músicas misturam coisas ideias bastante diferentes, como música erudita, sintetizadores, cordas e uma levada de música brasileira. Como funciona isso na hora de compor? 
Agora estou mais organizado, mas tento não definir o gênero antes de começar a escrever uma canção. Começo gostando de uma melodia e de um ritmo, e tento fazer essas coisas se encaixarem. Não tenho muito preconceito com música: ouço do R&B do Kanye West até o [pianista] Nelson Freire tocando uma peça do Chopin. Quando componho, tento seguir essa regra, agregando coisas que eu gosto de vários gêneros diferentes. Acho que eu não consigo definir direito o som que faço. 

Você faz tudo nas suas músicas ou divide o trabalho com alguém?
Geralmente, eu componho as melodias e os arranjos, mas na parte das letras tenho uma ajuda do meu irmão. É algo que varia de música para música.

Quem você aponta como influências no teu trabalho? 
Eu gosto muito do Jamie XX, do The XX, embora prefira os remixes dele às músicas originais. Acho o El Guincho um cara bem bacana, mas ultimamente tenho ouvido muito house e música erudita, que são coisas que me dão uma descansada na cabeça.

“A Visita” é a sua música mais conhecida - e também a mais diferente do seu trabalho até aqui. Como foi que ela surgiu?
Compus essa música quando eu estava na Irlanda, em 2009. Lá, o meu instrumento era o violino, porque eu não tinha um piano nem um sintetizador. Acabei ficando muito ligado aos gêneros que podiam ser tocados com o violino, como o folk. “A Visita” reflete um pouco essa conexão: era um som que eu vivia muito naquela época, com essa pegada folk e vintage. Gosto muito dessa música, mas acho que é o tipo de canção que eu não sei se conseguiria fazer mais. Apesar de todo mundo dizer que essa é a minha “música de trabalho”, eu aviso: não esperem outra “A Visita”. Acho que as músicas do novo disco estão muito mais próximas da estética que eu usei em “12 de Maio”, por exemplo.

Para quem você gostaria de fazer uma visita?
Essa pergunta é difícil. Ah cara, não sei, viu?

Você gravou o seu EP em casa, como muitos artistas têm feito hoje. Como você se sente quanto a isso?
No meu EP, usei uma estética lo-fi, que permitia esse tipo de gravação. Sei que existem certas coisas que não podem ser gravadas em casa, porque pedem uma acústica e um tratamento melhor, mas acho que ter um estúdio no quarto é o grande trunfo dos artistas do nosso tempo. Antigamente, você tinha que juntar uma grana e ir para o estúdio, e gravava o mais rápido o possível. Em casa, você pode trabalhar uma música durante um mês sem ter muito problema. 

Tua carreira seria outra se não fosse a internet?
Acho que sim. Descobri a maior parte das coisas que eu gosto pela internet. Se não fosse ela, minha música seria diferente, provavelmente eu estaria tocando MPB, que é o que se fazia na minha faculdade, ou música erudita. Além disso, a internet fez minha música chegar até uma gravadora. Não sei se isso aconteceria de outra maneira, talvez eu estivesse apenas fazendo música para os meus amigos.

Como foi tocar no festival Sónar, ao lado de grandes nomes da música eletrônica, como o Kraftwerk e o Justice?
Foi muito... difícil. Foi algo grande para mim, porque era um festival com vários artistas que admiro de verdade. Foi o meu terceiro show desde que eu comecei com esse projeto, e antes eu só havia tocado para um público de 150 pessoas. Foi uma pressão enorme, mas ao mesmo tempo, um privilégio. 


O teu trabalho é cheio de arranjos bem trabalhados. Como é transpor essas músicas do disco para o palco?
Ainda está sendo um desafio. No palco, somos apenas eu e um baterista, e nós tentamos reproduzir ao máximo os elementos do disco ao vivo. Claro, não dá para não usar programação, porque senão as músicas iam ficar vazias, mas é difícil, porque todos os arranjos são cheios de elementos. 

Qual é o maior show da tua carreira até agora?
Foi o do Sónar. Não sei se foi o maior em termos de público, mas em importância com certeza foi. O mais legal disso tudo é que eles me convidaram pouco mais de um mês depois que o EP tinha saído. Foi uma sorte imensa. 

Vitória é uma cidade que aparece pouco no noticiário. Como anda a cena musical da cidade?
Vitória é uma cidade que costuma não aparecer nem na previsão do tempo (risos). Mas tem muita coisa legal aqui. Tem o André Paste, que faz vários mash-ups e é um dos meus melhores amigos. Gosto muito de uma banda do interior do estado, o We Are Pirates. Mas não conheço muita gente também. Sempre fiquei bem na minha, e acho que é um pouco assim aqui, cada um tocando no seu quartinho. 

O que você espera para o futuro?
O que eu quero que aconteça daqui para frente é que eu consiga tocar mais ao vivo. É algo que eu fiz pouco até agora, porque tive de conciliar as gravações do disco com o meu último semestre na faculdade de Música. Estar no palco é algo que eu adoro fazer, e espero que as pessoas gostem do meu disco.

Qual é a mensagem que você quer passar como artista?
Gosto muito de música, mais do que de fazer letras, porque a música é algo mais subjetivo. O som passa uma mensagem ampla, enquanto a letra coloca um ponto no que você quer dizer. Não tenho muito uma mensagem, não levanto bandeiras políticas, não quero dizer isso ou aquilo. Gosto da música como entretenimento. Espero que as pessoas, ao ouvirem o que eu faço, se sintam melhores. Não sei falar bonito, não tenho pretensão de mudar as coisas com a minha música. Acredito mais na música como sensação do que como história.

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