23 de jun de 2013

Laranja Mecânica: Amsterdã, Moinhos e Utrecht

Por favor, ignore a pretensão deste começo de texto e siga em frente: no futuro, se todos os documentos terrestres se perderem e só sobrar este blog, os intelectuais da época irão acreditar que toda a experiência humana se baseia apenas - e tão somente - em expectativas. Não é uma ideia de todo errada: já perdi a conta de quantas vezes escrevi um texto sobre surpresas ou decepções a partir de baixas ou altas esperanças, respectivamente. É bem comum, meu caro leitor. Mas o que dizer quando você não espera lá muita coisa de um lugar e, mesmo assim, ele consegue te deixar com um muxoxo na cabeça? Essa foi a Holanda pra mim. 

Não que não tenha sido por falta de tentativa - especialmente do querido Gijs, que recebeu a mim e a Lelê em sua casa em Benschop e nos ofereceu um apartamento em Utrecht por dois dias. Mais que isso: Gijs nos buscou e nos levou no aeroporto, nos levou para conhecer um parque cheio de moinhos e mostrou um lado dos Países Baixos que pouca gente (pelo menos no estilo de viagens que este escritor está realizando) vai atrás. (In case you're reading this, Gijs, my sincere thanks to you, man!)


Entre o nosso português e o holandês dele, o inglês como língua comum (que a maioria dos holandeses fala muito bem, obrigado), e uma meia dúzia de histórias, impressões e... ehrm, cigarros compartilhados. Sim: assim que chegamos à sua casa, o rapaz começou a bolar um e nos ofereceu. Foi engraçado, mas de fato, foi uma experiência holandesa das mais típicas (de acordo com as minhas impressões): afinal, pelo menos para um jovem de classe média-alta, um baseado é (ou deveria ser) tão cotidiano quanto um copo de whisky ou cerveja. 

Hospedados em Utrecht, eu e Lelê fomos todos os dias de trem para Amsterdã. Se, por um lado, tal condição nos permitiu ver como é uma cidade holandesa "comum", por outro nos tirou um pouco da vida noturna da capital do país. Pelo sim, pelo não, não se pode criticar o que não se viu, mas, mesmo em plena luz do dia, Amsterdã passou longe de me conquistar. (E isso é extremamente importante porque, até onde eu sei, pelo menos para conhecer cidades eu sou muito mais diurno que noturno).

É uma cidade bonita, sim, mas tão bem organizada que chega a irritar - tem uma hora que você não aguenta mais ver canais, tulipas, representações estilizadas de moinhos e bicicletas. Argh, as bicicletas: é admirável a maneira como os holandeses as utilizam, mas, depois de uma semana com o trânsito em mão inglesa, ter que prestar atenção em carros e nas magrelas foi demais pra minha cabeça.

Assim como o Rijksmuseum, ou Museu Nacional, para os íntimos, superestimado por si só (a entrada custa 15 euros, sem desconto para estudantes, sendo o museu mais caro que eu fui na Europa) e bastante extenso (além de artes, a instituição também é sede de coleções históricas do país). É claro, não é todo dia que você vê um Rembrandt incrível como a "Vigia Noturna", mas é pouco - e de se criticar a ideia do museu de reunir todas as obras mais importantes em uma galeria de honra, obviamente lotadíssima (sempre um empecilho para admirar um quadro), enquanto salas inteiras do lugar ficam vazias. 

Não posso, porém, dizer o mesmo do museu Van Gogh. Apesar de cobrar o mesmo preço de ingresso que o Rijks, a casa do pintor que cortou a orelha (rá!) oferece um acervo de encher os olhos, em uma exposição bastante didática e com forte apoio da tecnologia. 

Uma coisa bacana, por exemplo, é a amostra de como o pintor reutilizava suas telas - e como isso deixou marcas em alguns de seus trabalhos. Além disso, o museu é a sede de três quadros pra guardar no coração: o dos girassóis, o da noite com os corvos e o quarto do artista. Foi meu lugar favorito em Amsterdã - junto com qualquer lanchonete da rede Manneken Pis, onde você pode comer um cone gigantesco de batatas fritas deliciosas com maionese por 3,50 euros. 

É claro que uma passada na capital holandesa não estaria completa sem andar uns três quarteirões do Red Light District, aquela zona da cidade (tudum-tss) onde as garotas mostram seus corpos nas vitrines em busca de clientes - embora, pelo menos na hora que eu passei por lá, elas estivessem mais interessadas em mexer em seus celulares, e isso não é uma metáfora para nada. O que poderia ser excitante, no fim das contas, acabou por ser um bocado deprimente. Ah, e pra quem está se remoendo de curiosidades: sim, um coffee shop parece uma cafeteria normal, só que com os cigarros e bolinhos à venda. No more, no less. 

Depois de três dias (e um show do Rod Stewart, do qual falo já já), a sensação que ficou sobre Amsterdã (e a Holanda como um todo) é o contrário do que eu tinha antes. Se, até pisar em Schiphol, eu acreditava que o país da Laranja Mecânica era incrível justamente por legalizar a prostituição e a maconha, senti depois que nem liberando essas coisas ele se tornaria um país legal. Para definir toda a experiência em apenas uma expressão, "não bateu". 


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