27 de jun de 2013

Mo Ghile Mear: Neil Young ao vivo em Dublin

Em algum momento da minha infância, lembro-me de um final de tarde que meu pai foi me buscar na escola, e, no lugar de uma rádio qualquer que nós sempre escutávamos juntos, havia um cara de voz esganiçada cantando sobre um homem velho. Meu pai berrava a letra junto com a canção, não se importando com o trânsito de São Caetano do Sul às seis e alguma coisa da tarde. Anos depois, eu fui saber que o tal cara se chamava Neil Young, que o homem velho era o "Old Man" e o disco no rádio era o Harvest,que dali em diante se tornou meu companheiro de muitas paixões perdidas edescobertas durante a adolescência.

Desde a sexta ou sétima série, o maior canadense-americano vivo me acompanha, como um mentor enigmático munido de palavras sábias, apaixonadas e solos de guitarras empolgantes. Ao mesmo tempo em que minha paixão pela obra do The Loner crescia, minha certeza de que não o veria em solo pátrio aumentava -de maneira que, assim como os estudos e a ida à terra do meu avô, assistir a um show dele se tornou um dos principais objetivos dessa viagem, cumprido bem no meio do mochilão de junho, no último dia 15, na RDS Arena, em Dublin. Mais do que o meio da viagem, entretanto, na altura aquela apresentação parecia resumir a vida ao meio - antes e depois de Neil Young.


O dia, entretanto, começou com dois shows de abertura bastante especiais: primeiro, os velhinhos endiabrados dos Los Lobos esquentando a tarde ensolarada, mas fria e ameaçando chuva da capital irlandesa, com bons solos, muita animação e, claro, a releitura de "La Bamba", cantada sobre a base harmônica de... "Like a Rolling Stone" - vale a pena caçar o vídeo por aí no YouTube da vida. Diversão garantida.

Meia hora depois, os heróis locais do Waterboys botaram os quarentões bêbados do local para berrar alto seus hits, com grande participação do violinista Steve Wickham - uma pena, entretanto, que a favorita da casa "The Whole of the Moon" tenha sido uma das canções menos animadas do repertório dos garotos da água. Água essa, por sinal, que caiu torrencialmente após a passagem do grupo de Mike Scott pela RDS Arena, transformando a espera na parte mais difícil - e me presenteando com a volta da gripe que parecia ter sido curada emUtrecht.

Se água era a palavra de ordem no local, mais um pouco dela saiu dos meus olhos assim que Neil Young e a Crazy Horse entraram no palco, criando uma parede sonora à primeira vista bastante agressiva, mas recheada de amor com... "Love and Only Love" e "Powderfinger". A essas duas, seguiram-se dois grandes números do disco mais recente da banda, a faixa-título "Psychdelic Pill" e a arrasa-quarteirão "Walk Like a Giant", com seus quase vinte minutos de grandes solos de guitarra, assobios, falsos finais que culminavam em explosões de som e muita, mas muita farra dos senhores de idade em cima do palco.

Era bonito ver que, mesmo depois de um aneurisma cerebral e quinhentos mil anos de estrada, Young e seus companheiros continuam a se divertir na ribalta como jovens que acabaram de ganhar seu primeiro instrumento. Outro exemplo empolgante dessa jovialidade é "Fuckin' Up", na qual plateia e músicos brincam de xingar-se uns aos outros, amparados por mais guitarras distorcidas, é claro.

O coração bateu mais forte e o rosto ficou todo molhado de lágrimas quando Neil Young ficou sozinho no palco, apenas com seu violão e sua gaita, para dois números acústicos: a baladaça "Comes a Time" e uma releitura pessoal de "Blowin' in the Wind". 

Pessoalmente, tudo o que eu queria é que o tio Neil continuasse ali no palco por mais meia hora, mandando clássicos e mais clássicos pra me deixar sem chão, mas após soprar o vento ele trouxe a Crazy Horse de volta para mais uma hora de muito barulho, com um repertório que provaria para qualquer um porque o canadense merece o apelido de pai do grunge. Além da já citada "Fuckin' Up", rolaram "Ramada Inn", "Cinnamon Girl", "Mr. Soul" e aquela que é, talvez, quem sabe, a maior canção de Young: "Hey Hey My My (Into the Black)".

Os últimos bis dos shows de Young continham "Like a Hurricane" ou "Everybody Knows This is Nowhere" ou ainda "The Needle and the Damage Done", mas quem deu as caras em Dublin foi "Cortez the Killer", com mais um arrasador solo de guitarra, fazendo jus ao original da "verdade-revelada" que é Zuma

Mesmo assim, alguma coisa não aconteceu por completo no meu coração - até posso colocar a culpa na gripe, no cansaço e na saudade de casa, meus maiores companheiros de viagem, mas não posso deixar de dizer que saí da RDS Arena com a sensação que ficou faltando alguma coisa.

Há, na nossa sociedade contemporânea, uma grande valorização dos ritos de passagem: quantas vezes, caro leitor, você já parou pra discutir, idealizar ou comemorar o seu primeiro beijo, a sua primeira namorada, a sua primeira transa, emprego ou show de rock? Entretanto, com um pouquinho de maturidade (não muita, afinal, este escritor chegou há pouco na segunda dezena da vida), a gente acaba descobrindo que nem sempre o que vem primeiro é o melhor, que ansiedade demais pode atrapalhar tudo na hora H, e que às vezes, as coisas certas não acontecem na hora certa - elas, assim como os melhores vinhos e a Coca-Cola na geladeira, precisam de um bocado de tempo para conhecer seu grande momento.

Este texto é prova disso: à saída do show (mais atrapalhada e confusa que fim de jogo em qualquer estádio de futebol brasileiro), tudo o que eu dizia era um muxoxo, mesmo sabendo que tinha visto um show pra fã nenhum botar defeito. Agora, guardo na lembrança outra imagem daquelas pouco mais de duas horas, como se fosse algo que eu não tivesse aproveitado por inteiro, ou sabido captar a energia do instante, mas que ainda assim, permanece de maneira doce na memória.

Há pouco mais de dois meses, escrevi um texto falando sobrecomo fazer um show inesquecível é uma arte complicada, por precisar de uma comunhão entre artista, plateia e condições específicas de tempo-espaço. Hoje, on the way home, pareço saber que nem sempre tudo precisa ser correto para se tornar, de alguma maneira, perfeito.

PS: Peço perdão pela péssima qualidade das fotos deste post. Não levei a câmera para o show – havia uma série de restrições em relação à captação de vídeos e imagens na RDS Arena, e fiquei com medo de ter de deixar a máquina por lá. Baita arrependimento – especialmente quando entrei no recinto e vi inúmeras câmeras DSLR. Fica pra próxima. 

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