17 de jan de 2013

Melhores 2012: Discos Internacionais

Prosseguimos hoje com mais uma parte do Melhores 2012 do Pergunte ao Pop. Depois da etapa nacional, apresentamos agora os melhores discos internacionais de um ano que contou com retornos interessantes (Dexys, The Beach Boys, Ben Folds Five), segundos discos instigantes (Bruno Mars, Frank Ocean) e uma estreia de muito peso (Michael Kiwanuka). Entretanto, assim como em 2011 (lembre aqui), os trabalhos de maior destaque dos últimos 12 meses são de veteranos como Neil Young, Ian McCulloch e o vencedor deste ano, o Chefe. Entenda por quê (e descubra quais são os 15 melhores álbuns no link abaixo). 

1º: Wrecking Ball, Bruce Springsteen

"This Land is Your Land", do cantor folk Woody Guthrie (um dos maiores artistas da Grande Depressão), já foi considerada informalmente como um hino não oficial dos Estados Unidos, por sua mensagem de união do país aliada a um ideal de igualdade (entenda pela estrofe: "As I went walking I saw a sign there/And on the sign it said "No Trespassing."/But on the other side it didn't say nothing/That side was made for you and me"). 

Em 2009, durante a posse de Barack Obama (em um momento bastante complicado para os EUA), Bruce Springsteen cantou "This Land is Your Land" ao lado de Pete Seeger. Três anos depois (e sem a presença do companheiro saxofonista Clarence Clemons, morto em junho de 2011), o homem de Nova Jersey é um dos poucos que se arrisca a analisar sem pudores o panorama geral de seu país, denunciando os corruptos e os culpados pela crise, sem deixar de lado o amor por seu lugar ("We Take Care of Our Own", com jeitão de rock arena, refrão arrepiante e letra inspirada em "This Land is Your Land"). 

Ciente do poder de fogo de uma guitarra (outra lição de Guthrie), Bruce não economiza palavras de força: em "Death to My Hometown", ele diz que "foram os ladrões gananciosos que trouxeram morte à sua terra natal", enquanto em "Easy Money" aparece o personagem que tenta se aproveitar da crise para faturar um dinheiro fácil. Na faíxa-título, Springsteen conclama os homens que tiverem culhões a trazerem para perto suas ferramentas de demolição, e avisa: "tempos ruins vêm e tempos ruins se vão, só para voltar de novo". Entretanto, nem tudo está perdido: nas duas últimas músicas de Wrecking Ball, o artista conta os feridos e os mortos, descobrindo que muitos sobreviveram ("We Are Alive") e, ao citar "People Get Ready" no meio da esperançosa "Land of Hope and Dreams", mostra que há uma luz no fim do túnel, mas para encontrá-la será necessário fé e muito trabalho pela frente. Mãos à obra, Bruce. 

Ouça: "Easy Money"
Leia: Resenha de Wrecking Ball por Marcelo Costa para o S&Y


2º: The Sound of the Life of the Mind, Ben Folds Five

13 anos separam The Sound of the Life of the Mind do último disco do trio norte-americano Ben Folds Five. Mas que não se engane o ouvinte: apesar da união renovada de Ben Folds (piano e voz), Darren Jessee (bateria) e Robert Sledge (baixo), dos corais inspirados em Beach Boys e do piano empolgado do vocalista, esse é um trabalho para dias de chuva e pessoas melancólicas. Títulos como "Erase Me" (que lembra o Supertramp) e "Thank You For Breaking My Heart" não deixam mentir. A dor continua em “On Being Frank” (”Eu tinha um sonho / mas os sonhos tinham outros planos pra mim”) e “Away When You Were Here” (”Você podia ter feito meu dia de casamento / Salvo minha juventude / Me ajudado com os meus problemas / Mas você estava longe, mesmo quando estava aqui”). “Do It Anyway”, o primeiro single, contemporiza: “Você pode colocar o seu amor e a sua confiança em jogo / É arriscado, as pessoas adoram destruir isso / Deixe-as tentar”. Entretanto, caro leitor, se a melancolia não for o seu forte, ainda assim é possível perceber que The Sound... é um grande disco. É só prestar atenção no domínio vocal de Folds na balançada “Draw a Crowd”, com seu arranjo digno de Jeff Lynne; no baixo distorcido de Sledge, que faz até esquecer a ausência das guitarras na banda; e na beleza de “Sky High”, escrita pelo baterista Jessee. Em cerca de 45 minutos, Ben Folds e seus asseclas garantem o resultado numa boa – aumentando a curiosidade se vão levar o jogo para um eventual segundo tempo.

Ouça: "On Being Frank"

3º: channel ORANGE, Frank Ocean

Algumas semanas antes de lançar seu segundo disco, o cantor americano Frank Ocean declarou à imprensa ser bissexual - o que foi julgado por muitos como uma jogada de marketing do artista para atrair ainda mais os holofotes para si. Seja como for, esqueça a fofoca e mergulhe em channel ORANGE, um disco bastante pessoal de Ocean. Resgatando Stevie Wonder e Prince, Ocean usa o rap como ferramenta a serviço do R&B, explorando a Califórnia rica ("Sweet Life"), seus personagens ("Super Rich Kids") e vícios ("Crack Rock"); fazendo longas viagens pela noite adentro ("Pyramids", petardo de 9 minutos sobre uma stripper, e "Bad Religion", na qual se declara a um motorista de táxi) ou singelas canções de amor (o single "Thinkin' 'Bout You", indicado ao Grammy; e a cativante "Forrest Gump"). Assim como Criolo fez no Brasil em 2012, este pode ser o disco que fará muitos "jovens brancos de classe média-alta" começarem a se embrenhar pelo maravilhoso mundo da música negra. 

Ouça: "Super Rich Kids"
Leia: Resenha de channel ORANGE por Andressa Monteiro para o PaoP

4º: Psychedelic Pill, Neil Young & Crazy Horse

"Algumas pessoas falavam sobre como eu era ótimo quando escrevia uma penca de canções, mas não tenho certeza de que elas sabem do que estão falando. Por quê ficar tão encanado com o passado? O que posso dizer ou fazer por você agora? Temo que não muito", escreveu Neil Young a certa altura de sua autobiografia, Waging Heavy Peace, lançada em 2012 nos EUA (e também no Brasil, pela Globo). Em várias passagens do livro, Young conta que parou de fumar maconha e beber, e que isso o deixava inseguro em relação a seu próximo disco a ser gravado com a Crazy Horse. Mas calma: Psychedelic Pill, o tal disco, é ouro puro. Com quase uma hora e meia de duração e apenas oito faixas (duas delas com 16 minutos, e outra com incríveis 27!), Pill é um disco difícil e que pede a atenção do ouvinte, mas que vale a pena se for apreciado com a devida calma. Quer provas disso? Então encare "Driftin' Back" (a tal faixa de 27 minutos), que começa acústica, embarca em longas viagens de guitarra e mostra Young querendo voltar ao passado, além de ser um manifesto do canadense a favor de uma qualidade de som melhor (segundo ele, o que se ouve em um mp3 é apenas 5% da qualidade original). Não está satisfeito? Então siga em frente com "Walk Like a Giant", arrasadora faixa de 16 minutos com todo o peso (e assobios) da Crazy Horse e que mostra todo o idealismo do cantor: ele estava acostumado a andar como um gigante pela terra, viu seus sonhos caírem por terra, mas mesmo assim não desistiu de mudar o mundo. Ainda bem. 

Ouça: "Driftin' Back"
Leia: Neil Young - A Autobiografia, por Marcelo Costa, para o S&Y

5º: Sweet Heart Sweet Light, Spiritualized

Antes de gravar Sweet Heart Sweet Light, Jason Pierce (o homem por trás do Spiritualized) teve uma doença degenerativa no fígado, e passou por um tratamento definido por ele mesmo com "pior que a própria doença". Talvez seja por isso que parte de seu novo trabalho de seu projeto pareça buscar uma redenção ou agradecer aos céus, como hinos gospel modernos compostos diretamente para o século XXI ("So Long You Pretty Thing", "Life Is a Problem"). Mas não é a apenas isso que se reduz Sweet Light, um disco que remete muito ao Velvet Underground (especialmente na grandiosa "Hey Jane" e seus oito minutos de homenagem a "Sweet Jane") e conta com baladas de cortar o coração ("Too Late", embalada por violinos e dona de um verso arrepiante como "Love lights the flame when there's hearts it can burn"). Para ser escutado no último volume, no melhor fone de ouvido que você tiver à disposição. 

Ouça: "Too Late"
Leia: Entrevista com Jason Pierce, por Thiago Ney, para o iG

6º: Home Again, Michael Kiwanuka

Faixa que abre a estreia do inglês Michael Kiwanuka, “Tell Me a Tale” deixa claro em seus vinte segundos iniciais as matizes que se ouvirão no trabalho do cantor. O arranjo intrincado da canção e sua letra cheia de significados poéticos tramados de maneira (aparentemente) simples ecoam o pop sofisticado de Van Morrison e Nick Drake, enquanto a voz de Kiwanuka traz à tona o bom charme de crooners como Sam Cooke e Otis Redding. Tais influências perpassam as dez faixas de Home Again, seja em um momento mais balançado, como o doo-wop “Bones”; alegre, como na folk-song “I’ll Get Along”; ou ainda nas introspectivas baladas “Rest” e “I Won’t Lie”, que arrepiam até o último fio de cabelo. Conhecido por ter aberto shows para Adele em 2011, Kiwanuka compartilha com a cantora de “Someone Like You” a sensação de fazer música deslocada de seu tempo, mas com apelo junto ao público por ir contra a maré. Ao contrário de Adele, Kiwanuka parece ser capaz de colocar voz própria em suas canções sem apelar para floreios e exageros, compondo um disco em que pouquíssimas coisas parecem fora de sintonia. Em “I’m Getting Ready”, outro ponto alto de Home Again, o cantor diz que ainda está ficando pronto para acreditar em algo maior, mas, depois de ouvir o disco por inteiro, é difícil dizer que não trata-se de um artista já maduro. 

Ouça: "I'm Getting Ready"

7º: That's Why God Made the Radio, The Beach Boys

Se você é um fã da boa música, você já deve ter rido, dançado e também chorado muito ao som dos garotos da praia, que comemoraram 50 anos de carreira no ano que passou. Além de uma apresentação no Grammy memorável (apesar das participações dispensáveis do Foster the People e Maroon 5), o grupo fez em 2012 seu requiém para uma trajetória inspirada. Entretanto, a palavra de ordem de That's Why God Made the Radio parece ser mesmo a alegria: todo composto e produzido por Brian Wilson, o disco tem dois terços de sua duração dedicados a odes ao verão ("Beaches in Mind", "Daybreak Over the Ocean", a faixa-título) e ao retorno de um grande amor ("Isn't It Time?"). Nas três últimas canções, porém, aparece a tristeza da despedida (ouça "Summer's Gone" e entenda) - mas, desta vez, a sensação é de dever cumprido. 

Ouça: "Isn't It Time?"

8º: Swing Lo Magellan, The Dirty Projectors

À primeira escutada, Swing Lo Magellan pode parecer um disco excêntrico. Ele é: cheio de arranjos vocais intrincados, utilização de diversas marcações rítmicas ao mesmo tempo e uma mistura de indie com soul e pop, o sétimo álbum do Dirty Projectors não é lá um disco simples de ser escutado para neófitos. Mas vale o aviso: a cada audição, mais camadas do trabalho da banda do Brooklyn vão sendo percebidas, e aí é difícil resistir à força de canções fortes como "Gun Has No Trigger", a animada "Dance For You", o balanço coletivo de "Unto Caesar" e a fofice de "Irresponsible Tune". Entretanto, se em boa parte do álbum quem lidera os vocais é Dave Longstreth, responsável também pela autoria da maior parte do repertório dos Projectors, o melhor momento de Swing Lo Magellan é o voo solo de Amber Coffman em "The Socialites", capaz de derreter até o coração mais glacial da Terra. 

Ouça: "The Socialites"

9º: Unorthodox Jukebox, Bruno Mars

Em janeiro de 2012, Bruno Mars fez um divertido show em São Paulo, cantando para um público em boa parte formado por crianças e pré-adolescentes. Onze meses depois, quase tudo parece ter mudado quando se escuta Unorthodox Jukebox, seu segundo disco. Disposto a mostrar que cresceu, Mars agora fala sobre sexo (o ska "Show Me" e "Gorilla", um encontro entre o Aerosmith e Prince) e debulha-se em lágrimas por um amor que se foi ("When I Was Your Man", na qual mostra seu grande domínio vocal). Inspiradíssimo nos anos 1980, o cantor mostra aqui hoje porque é o menino de ouro do pop americano, seja emulando o Police ("Locked Out of Heaven"), revisitando a obra de Michael Jackson ("Treasure", que parece saída de Off the Wall) ou reverenciando os mestres do passado ("If I Knew", um doo-wop à moda de Sam Cooke). Surpreendente. 

Ouça: "If I Knew"
Leia: Bruno Mars em São Paulo, para o S&Y

10º: Soba Lobi, Os Pontos Negros


Em seu terceiro disco, os portugueses dos Pontos Negros voltam com mais peso nas guitarras e um pouco mais de raiva nas letras, depois do cativante Pequeno Almoço Continental, de 2010, por cujos refrões Julian Casablancas daria um braço. Com uma formação que conta com duas guitarras, bateria e teclados, a banda tem nome inspirado nos White Stripes, mas nega a inspiração em uma das melhores músicas de 2012, “Senna”, cuja letra proclama: “Esse mundo quer ser Schumacher/Eu prefiro ser Ayrton Senna”. Ao longo do álbum, eles ainda cutucam a louvação da melancolia (“Eu + Eu = Ninguém”), chamam Dom Sebastião de “mandrião”, espelhando o momento político de Portugal (“Prolongamos o Sonho”) e contam a trágica história de uma garota que vestia uma t-shirt dos Ramones (“Gabriela”). No final, porém, avisam que “depois da queda vem a ascensão”. Para além do sotaque, Soba Lobi mostra que devíamos prestar mais atenção ao rock feito do outro lado do Atlântico.

Ouça: "Senna"
Leia: Show d'Os Pontos Negros, por Victor Ferreira, para o PaoP

11º: What Kind of World, Brendan Benson

Brendan Benson é conhecido por aí como "o outro cara do Raconteurs" (que é lembrada por aí como "a outra banda do Jack White"). O americano merecia melhor sorte. Dono de inspiradas melodias e um fazedor de grandes arranjos power-pop, Benson cometeu em 2012 um grande trabalho, capaz de deixar alguns refrões por dias na sua cabeça, como "Light of Day", "What Kind of World" e "Happy Most of the Times". O destaque, porém, fica para "Bad for Me", uma canção que parece retirada do songbook setentista de Paul McCartney, seja por sua levada ao piano ou por sua letra emocional (e emocionante). 

Ouça: "Bad for Me"

12º: One Day I'm Going to Soar, Dexys

2012 foi um bom ano para os fãs do Dexy's Midnight Runners (hoje assinando apenas como Dexys). Além de ver o maior hit do grupo, "Come On Eileen", ilustrar uma das grandes cenas do ano no indie As Vantagens de Ser Invisível, ainda houve tempo para que o grupo, sem gravar desde o meio dos anos 1980, voltasse à ativa. One Day I'm Going to Soar é um trabalho interessante, denso, para ser escutado de cabo a rabo, mas que revela ao menos duas grandes pop songs irresistíveis: "I'm Always in Love" e a fofa, apesar do nome, "Incapable of Love". Para quem se encantou com a dança de Emma Watson e Ezra Miller, vale conferir - e descobrir que o Dexys é muito mais que um one-hit wonder. 

Ouça: "Incapable of Love"

13º: Born and Raised, John Mayer

Calma, calma, você não enlouqueceu: é mesmo o nome de John Mayer que está escrito ali em cima, aquele cara que há dez anos vem tentando provar que é um grande guitarrista e ao mesmo tempo pegar todas as celebridades disponíveis (que o digam Jennifer Aniston, Taylor Swift, Jessica Simpson e Katy Perry). Em resumo: John Mayer é o pleiba do rock. Entretanto, depois de um problema nas cordas vocais e uma meia dúzia de problemas pessoais, Mayer aparece com este Born and Raised, um disco folk, inspirado em heróis como Neil Young, Joni Mitchell, David Crosby e Graham Nash (os dois últimos participam da boa faixa-título, melhor momento do álbum). Não é um trabalho grandioso, mas que merece ser escutado como um voto de confiança a um cara que já irritou muito e resolveu tentar coisas novas. Vai que... 

Ouça: "Born and Raised"
Leia: Resenha de Born and Raised, por Andressa Monteiro, para o S&Y

14º: Go Fly a Kite, Ben Kweller

Aos 30 anos de idade, Ben Kweller chega ao seu sexto disco (!), em pouco menos de 20 anos de carreira. Responsável por um dos shows mais divertidos de 2012, Kweller faz em Go Fly a Kite uma mistura bem azeitada de folk, pop e guitar rock, brincando com bons riffs e canções cativantes. É um bom cartão de apresentações, com hits grudentos como "Jealous Girl", "Mean to Me", "Gossip" e "Time Will Save Day".

Ouça: "Jealous Girl"
Leia: Entrevista com Ben Kweller para o S&Y

15º: Pro Patria Mori, Ian McCulloch

Com a voz ainda mais rouca por culpa de anos e anos fumando cigarros e mais cigarros, o vocalista do Echo and the Bunnymen volta a gravar com Pro Patria Mori, um disco quase acústico e marcado por arranjos de cordas vigorosos. Dois destaques pululam do álbum: a homenagem (mais que merecida) ao camaleão do rock em "Me and David Bowie", e a pungente "Somewhere in My Dreams", declaração de amor apaixonada. 

Ouça: "Somewhere in My Dreams"
Leia: Ian McCulloch no SESC Pinheiros

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