23 de jan de 2013

Melhores 2012: Livros

Eis aqui o último passo da jornada dos Melhores de 2012: livros. Assim como na área de cinema, este blog avisa que literatura (por enquanto) não é uma das especialidades da casa, sendo essa lista muito mais um parâmetro pessoal "dos grandes livros lançados esse ano que li em 2012" do que exatamente um panorama sobre a produção dos dias que correm. Entretanto, posso garantir com alguma certeza que poucos volumes que chegaram às livrarias nos últimos meses seriam tão instigantes quanto os três primeiros colocados da lista que aparece a seguir. Obrigado a todos pela atenção e pela paciência: os melhores do ano voltam em janeiro de 2014 - que melhor sorte nos encontre daqui a um ano. 

1º: A Visita Cruel do Tempo, Jennifer Egan


Quarto livro da americana Jennifer Egan, A Visita Cruel do Tempo oferece a seus leitores uma experiência literária contemporânea da maior intensidade. Em treze capítulos ágeis, divididos em lado A e lado B (como um disco de vinil), Egan passeia por diferentes formas de se construir um relato (memórias em primeira, terceira e até mesmo segunda pessoa, diálogos rápidos, reportagens jornalísticas e uma apresentação em power point), épocas (dos anos 70 a um futuro próximo) e personagens (a assessora de imprensa de um ditador do terceiro mundo, um executivo de uma gravadora recém-divorciado, um garoto de pais separados que acompanha a irmã em um safári na África e muitos outros). 

Dito dessa forma, pode até parecer que a escritora privilegia a forma em detrimento do conteúdo, mas este seria um ledo engano. Egan é uma construtora de histórias, fazendo com que narrativas díspares se conectem como uma bem traçada teia de ideias sem desrespeitar a inteligência do leitor, tendo sempre como tema principal a passagem do tempo (e os traços deixados na areia por essa força). 

"As melhores pausas do rock'n roll", o tão falado capítulo que é uma apresentação de power point, talvez seja o tour de force de Egan, e uma das principais razões da contemporaneidade da obra. Em um momento em que tablets, e-readers e até mesmo notebooks passam a ser considerados como suporte para livros, construir um capítulo de tal maneira é proporcionar uma leitura diferenciada e inesquecível, ampliando a diferença entre o papel e a tela luminosa, além de desbravar novas fronteiras para a literatura, sendo agora capaz de dialogar com o design, a informática, a música, as artes plásticas e o cinema de maneira intensa. Isso não é pouco.

Leia: Resenha de A Visita Cruel do Tempo


2º: Barba Ensopada de Sangue, Daniel Galera

Um dos maiores nomes da ficção contemporânea brasileira, reseponsável por bons trabalhos como o vigoroso conjunto de contos da estreia Dentes Guardados ou o romance de formação Mãos de Cavalo, Daniel Galera regressa ao romance com Barba Ensopada de Sangue, após colaborar com o desenhista Rafael Coutinho na graphic novel Cachalote. Em Barba Ensopada de Sangue, a literatura de Galera ganha ainda mais corpo na história de um professor de educação física que, após o suicídio do pai, resolve ir morar sozinho em uma praia do litoral catarinense, buscando não só entender a si próprio como investigar a morte do avô, que vivera ali nos anos 60. 


3º: Habibi, Craig Thompson

No meio da década passada, o quadrinista americano Craig Thompson encantou leitores no mundo todo com a narrativa extremamente confessional e delicada de Retalhos, na qual narrava seu amadurecimento em uma família católica e suas primeiras experiências amorosas e sexuais de maneira tocante. Anos depois, Thompson volta a maravilhar seus fãs com Habibi, uma história de amor passada no Oriente Médio nos dias de hoje (embora essa seja uma referência temporal não exatamente importante). Costurando (à maneira das histórias encaixadas tão comuns na literatura árabe) a história da jovem Dodola, vendida como noiva a um escriba aos nove anos de idade, e de Zam, bebê abandonado por uma escrava e adotado pela jovem, com mitos, o Corão e As Mil e Uma Noites, Habibi impressiona pelo traço arrojado, influenciado pela cultura da região, e também pelo vigoroso trabalho de pesquisa feito por Thompson, tornando o que era forte em Retalhos algo assombroso.


4º: Filho Teu Não Foge à Luta, Fellipe Awi

Ambicioso, Filho Teu Não Foge à Luta tenta mostrar de maneira descomplicada como os brasileiros foram responsáveis pela transformação do MMA em uma paixão mundial. Escrito no calor da hora pelo jornalista Fellipe Awi, o livro perde pontos ao forçar a barra no pachequismo de sua proposição, como se a subestimar a importância de eventos como o japonês Pride e a força de figuras como o americano Dana White, responsável por erguer o hoje império do UFC. Mas, ao final de quinze rounds, é um volume que merece bastante destaque ao desmitificar a figura da familia Gracie, disseminadores do brazilian jiu jitsu, criadores do Ultimate Fighting Championshio e eventuais brigões em baladas do eixo RJ-SP; e apresentar aos recentes aficionados pelo esporte a história de nomes importantes (e esquecidos) da modalidade, como Marco Ruas, Wanderlei Silva e Royce Gracie. 

Leia: Resenha de Filho Teu Não Foge à Luta para o S&Y

5º: Neil Young - A Autobiografia, Neil Young

Escrito a próprio punho por Neil Young (sem o auxílio de jornalistas ou ghost-writers), Neil Young - A Autobiografia pode frustrar os leitores em suas primeiras páginas: em vez de sair contando histórias sobre sua vida, o bardo canadense desata a falar sobre... trens elétricos. Mas vale a pena seguir em frente: apesar da falta de memória e do texto confuso de Young (ele chega a contar algumas passagens de sua vida duas ou três vezes, além de narrar como se estivesse conversando com amigos num bar), o livro é um jeito de entender melhor como funciona a cabeça de um dos maiores músicos de todos os tempos, seus medos, modo de criação, amores e pensamentos sobre o futuro. À medida que Young se acostuma com o fato de escrever um livro, ele vai ficando cada vez mais sentimental e denso, preocupando-se com sua morte ou com seu papel nos dias de hoje. Comovente. 

Leia: Resenha de Neil Young - A Autobiografia, por Marcelo Costa, para o S&Y

6º: Resposta Certa, David Nicholls
Com certeza você já deve ter visto essa antes: um garoto pobre e inteligente chega à universidade (e à vida adulta) cheio de sonhos, se apaixona pela garota mais bonita da escola, faz um monte de trapalhadas, se esquece da origem humilde, da família e dos amigos, percebe que fez tudo errado e… É mais ou menos essa a história de “Resposta Certa”, primeiro livro do britânico David Nicholls lançado em 2003 na Inglaterra, que se tornou famoso pelo romance “Um Dia”, adaptado para o cinema no ano passado com Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papéis principais. Apesar dos clichês, a narrativa de “Resposta Certa” funciona graciosamente, usando de boas sacadas, como certa fleuma britânica, uma maneira de dividir os capítulos bastante esperta e um bom retrato dos anos 1980. Antecipando características de “Um Dia”, com uma escrita apaixonada e envolvente, “Resposta Certa” faz rir mais, mas empolga menos que seu sucessor – talvez pelas referências culturais britânicas demais – mas é boa diversão, sendo leitura que prende o leitor de maneira quase obsessiva em pouco mais de 300 páginas.

7º: Magnetar - O Astronauta, Danilo Beyruth
Uma das criações mais filosóficas e cativantes do quadrinista de Maurício de Sousa, o Astronauta foi o escolhido por Danilo Beyruth (“Bando de Dois”, vencedor de três HQ Mix) para iniciar a coleção da MSP Graphic, selo do quadrinista de Mogi das Cruzes dedicado a graphic novels. Aqui, o personagem conhecido por singrar o espaço em uma nave laranja ganha roupagem moderna, viajando pelo cosmos para conhecer o Magnetar – um anel de asteroides feito de metal e gelo. No meio da viagem, o herói vê seu veículo sofrer uma pane e se depara com a luta pela sobrevivência física e mental. Se o enredo pode parecer quase óbvio, a obra conquista pelo traço detalhista, por cores muito bem trabalhadas e por dar nova cara a um personagem secundário de Maurício. É um bom começo para uma bela ideia, que terá sequência com Chico Bento e o homem das cavernas Piteco nos próximos meses. Vale ficar de olho.

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