14 de jan de 2013

Melhores 2012: Discos Nacionais

O Pergunte ao Pop tem o prazer de apresentar a vocês sua lista de melhores discos nacionais de 2012 - um ano de produção medíocre (especialmente se comparado a seus dois antecessores), mas com trabalhos bastante interessantes, como os de Jair Naves e Rafael Castro, e boas estreias, como as de O Terno e Medialunas, além do retorno de duas bandas veteranas que mostram que podem dar caldo: Cascadura e Bidê ou Balde. Mas o troféu de disco do ano vai para... (clique no link para saber quem são os outros 14 escolhidos)

1º: Tudo Tanto, Tulipa Ruiz

Contemporâneo sem perder a classe, Tudo Tanto leva para casa o troféu de disco do ano por mostrar uma evolução clara no trabalho de Tulipa Ruiz, dona de uma estreia empolgante em 2010. É interessante perceber o tratamento pop que Tulipa dá a músicas que são ao mesmo tempo crônicas e críticas de nossos dias, seja falando sobre normalidade ("Quando Eu Achar", com direito a um coro final irresistível), conformismo ("OK"), o "tudo ao mesmo tempo agora" ("Dois Cafés", belo dueto com Lulu Santos, que andava sumido) e amor livre ("É", apoiada por um arranjo de cordas que lembra os Beatles da fase Sgt. Pepper's). Entretanto, o momento mais instigante do disco (e também do show que corre o Brasil com patrocínio via edital da Natura) é "Víbora", na qual Tulipa crava uma das maiores performances vocais feitas no Brasil nos últimos dez (vinte?) anos, embalada pela guitarra bluesy poderosa de seu pai, Luiz Chagas, e pela participação sutil de Criolo. Em apenas seu segundo disco, Tulipa mostra que já é tudo esse tanto (e pode ser muito mais). 

Ouça: "Dois Cafés"


2º: Aleluia, Cascadura

Cinco anos separam Bogary, último trabalho do Cascadura, deste Aleluia. A espera compensou: em 23 músicas, cuja duração atinge o tempo de uma partida de futebol, o grupo baiano faz um panorama rico de Salvador, do Brasil e da América Latina, compondo porradas ("Cabeça de Nêgo"), rocks empolgantes ("Soteropolitana", "O Tempo Pode Virar"), baladas delicadas ("Os Reis Católicos", uma aula de história pelo olhar de Isabel de Castela), soul a la Otis Redding e Stevie Wonder ("Chorosa" e "Resumindo", respectivamente) e música experimental ("Colombo"). Depois de 20 anos, Fábio Cascadura permanece sendo um dos melhores letristas de sua geração - e faltou pouco para cravar o disco do ano. Bem pouco. 

Ouça: "Soteropolitana"

3º: E você se sente numa cela escura, planejando a sua fuga, cavando o chão com as próprias unhas, Jair Naves

Ex-frontman do Ludovic, Jair Naves estreou sua carreira solo em 2010, com o bom EP Araguari. Em E você..., Jair Naves expande as fronteiras do pós punk e coloca sua voz soturna (a la Nick Cave) a serviço de grandes letras, como a episódica "Pronto Pra Morrer", a biográfica "Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu", feita para sua mãe, e a delicada "A Meu Ver".

Ouça: "A Meu Ver"

4º: Lembra?, Rafael Castro

Músico prolífico e namorado de Tulipa Ruiz, Rafael Castro foi uma das boas surpresas de 2012 com este Lembra?, seu primeiro trabalho lançado em forma física. A mistura bem azeitada entre Itamar Assumpção, Raul Seixas, Mutantes e Mulheres Negras (com direito a boa participação de Maurício Pereira na caipira "Informação") é o que dá o tom aqui, em um disco que tira sarro do jornalismo contemporâneo ("Haiti", "Lixo"), da indústria de celebridades ("Lembra?"), do Twitter e das picuinhas por uma vida melhor ("Ah É Ah Tá") e não tem medo de brincar com problemas de saúde ("Menina Careca", "Surdo-Mudo"), passando longe do politicamente correto. 

Ouça: "Ah É Ah Tá"

5º: Intropologia, Medialunas

Formado pelo casal Liege Milk (Loomer) e Andrio Maquenzi (ex-Superguidis), o Medialunas estreia em formato long-play com Intropologia, um disco que se destaca pela inspiração noventista. Se Liege aparece como uma Meg White que deu certo, cantando em "No Te Va Gustar", Andrio continua a ser o guitar hero que era na Superguidis, um herdeiro direto de J Mascis e Jim Pollard. Porém, o melhor momento do Medialunas é quando a banda canta em português, nas boas "Memorabilia" e "Conversando com os Meus" fazendo os fãs da Superguidis esquecer por um momento que a banda chegou ao fim. 

Ouça: "Memorabilia"

6º: Enfim Terra Firme, André Mendes

Enfim Terra Firme, segundo álbum do ex-Maria Bacana André Mendes, segue a linha da estreia Bem Vindo À Navegação, com guitarras ensolaradas e letras sentimentais que ganham força com a voz sincera de André. É o que acontece, por exemplo, nas boas baladas “Breve e Leve” e “Tão Sós” (que lembram bastante a Legião Urbana de “As Quatro Estações”), ou de “A cidade que eu digo não”, na qual o cantor deixa claro que não se sente confortável dentro de Salvador. Vale ainda destacar o resgate de uma boa canção da Maria Bacana, “Fome”, e seu refrão pungente: “me conte quantas vezes você já se sentiu só?”. Para ouvir, se aquecer e abrir um sorriso.

Ouça: "Fome"

7º: 66, O Terno

Liderado pelo guitarrista Tim Bernardes, filho do ex-Mulheres Negras Maurício Pereira (que participa de todo o lado B do disco), O Terno cometeu uma das estreias mais interessantes de 2012. Com grandes riffs e solos, letras bem-humoradas e alguma ironia, o grupo de São Paulo merece atenção em próximas temporadas, especialmente pela esperteza da faixa-título, que remete a Roberto Carlos e dodecafonia para falar sobre a dificuldade de se fazer música hoje em dia.

Ouça: "Zé, o Assassino Compulsivo"
Leia: Entrevista com O Terno para o iG

8º: Manja Perene, Letuce

Casais em palco não são uma novidade na música brasileira - de Dalva e Herivelto a John e Fernanda, passando por Rita & Roberto. Lançado em fevereiro, Manja Perene reclama com intensidade o lugar de Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos nessa galeria interessante. Expondo a dor e a delícia de um relacionamento em sua música, o duo ganha pontos por baladas como "Sutiã" e rocks agitados como "Fio Solto" e "Insoniazinha" - esta última uma herdeira do repertório de Gal Costa no começo dos anos 1970. 

Ouça: "Insoniazinha"
Leia: Entrevista com o Letuce para o S&Y

9º: Caravana Sereia Bloom, CéU

Depois de viajar pela paisagem esfumaçada de Vagarosa, CéU pegou a estrada e pegou o rumo do rock em seu terceiro álbum, Caravana Sereia Bloom. Entretanto, não espere grandes arroubos roqueiros da paulistana, muito mais próxima do soul de branco que Roberto Carlos fez no começo dos anos 70 ("Retrovisor", "Falta de Ar"). Mas o melhor momento do disco é a "ai se eu te pego" do Baixo Augusta, "Chegar em Mim", na qual toda a malícia da voz de CéU pode ser sentida. 

Ouça: "Chegar em Mim"
Leia: Show da CéU no SESC Belenzinho

10º: Abraçaço, Caetano Veloso

Terceiro disco de Caetano Veloso com a Banda Cê, Abraçaço encerra a trilogia do “pós pé na bunda” do baiano. Se era um disco raivoso, e Zii e Zie um exercício sobre a liberdade, Abraçaço é um retrato amargo (e irregular), entre a melancolia (“Estou Triste”) e a ironia (a faixa-título, com grande solo noise de Pedro Sá), com certa dose de rejuvenescimento forçado (o que dizer de “tudo megabom, gigabom, terabom”?). Além disso, paira sobre o disco a sensação de que há algo de errado com o Brasil, em faixas como “A Bossa Nova é Foda”, que questiona o futuro de um país representado por Anderson Silva; ou a nostálgica (e maçante) “Um Comunista”, que relê Carlos Marighella como um herói trágico.

Ouça: "A Bossa Nova é Foda"

11º: Arrocha, Curumin

Música pop do terceiro mundo. Sucessor do aclamado Japan Pop Show, lançado em 2008, Arrocha investe em uma sonoridade que mistura ritmos brasileiros com batidas de programação e sintetizadores que soam quase obsoletos, como uma tecnologia ultrapassada que ficou relegada à periferia mundial. Não desconectada do que rola no mundo, essa periferia guarda sua história (“Paris Vila Matilde”) e fala inglês de igual para igual com a metrópole (“Blin Blin”, “Sapo Garimpeiro”). Entretanto, os melhores momentos acontecem quando essa periferia mostra seu amor ("Passarinho", que cita Roberto Carlos, e "Vestido de Prata", regravação de Paulinho Boca de Cantor"). Indústria brasileira da melhor qualidade. 

Ouça: "Passarinho"

12º: Tropicalbacanal, Bonde do Rolê

Liberdade. Essa é a palavra que define Tropicalbacanal, o segundo disco do Bonde do Rolê (e o primeiro com a vocalista Laura Taylor). Sem medo de chutar a bunda do politicamente correto, o trio curitibano mostra a que veio em faixas sexualmente ousadas como "Picolé" e "Kanye" (esta última uma homenagem ao rapper americano), além de botar Caetano Veloso na dança com "Baby Don't Deny It", versão para uma parceria do baiano com Robertinho do Recife nos anos 1980. 

Ouça: "Picolé"

13º: Eles São Assim e Assim Por Diante, Bidê ou Balde

Sem gravar um disco completo desde 2004 (o mediano É Preciso Dar Vazão aos Sentimentos), muita gente esperava que o novo álbum da Bidê ou Balde fosse arrasar corações e fazer todo o Brasil pular. Não foi bem isso o que aconteceu - falta ao disco certo entusiasmo de iniciante - mas foi o suficiente para que os gaúchos cravassem três baita pop songs: "Me Deixa Desafinar", "+Q1 Amigo" e "Lucinha". 

Ouça: "+Q1 Amigo"

14º: Ando Bem Alto, Benjamins

No ano passado, dois dos melhores discos do ano vieram de Mauro Motoki e Fábio Góes, dois compositores paulistanos que, apesar de não trabalharem exatamente juntos, parecem retomar os caminhos da melodia e do refrão pop, assim como fazia Guilherme Arantes nos anos 1980. Ando Bem Alto, álbum de estreia dos Benjamins, também segue essa linha, brilhando em faixas como "Vai Ver". 

Ouça: "Vai Ver"

15º: História Universal do Esquecimento, Lestics

Quinto disco da banda paulistana Lestics, História Universal do Esquecimento segue a linha dos trabalhos anteriores do grupo, cujas principais forças são as melodias inspiradas, os arranjos que remetem ao folk-rock e as letras marcantes de Olavo Rocha, como "O baile" e "Enquanto Espero". 

Ouça: "Enquanto Espero"
Leia: Entrevista com o Lestics para o S&Y

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