14 de fev de 2012

Tempo de Colheita

Hoje, esse disco aí do lado faz 40 anos, senhores. Posso dizer que Harvest, do Neil Young, é um dos discos que moldaram o meu caráter. É um dos responsáveis pela minha paixão pelo véio canadense - um artista que está entre os meus cinco favoritos (os outros, a saber: Pato Fu, Beatles, Tom Jobim e R.E.M.).

Harvest é o quarto disco solo de Neil Young, após ter sido parte de duas grandes bandas: o Buffalo Springfield e o Crosby, Stills, Nash & Young (os três primeiros vem ao Brasil no dia 10 de maio, segundo informações do jornalista José Norberto Flesch). Ele se seguiu aos petardos Everybody Knows this is Nowhere! e After the Goldrush, e foi gravado sem o acompanhamento da nobre banda Crazy Horse.

Aqui, em substituição a ela, aparecem os Stray Gators - capitaneados pelo produtor Jack Nitzsche - e um sem número de convidados para os backing vocals: além dos companheiros Stills, Crosby e Nash, Young ainda conta com a colaboração de James Taylor e Linda Ronstadt nas duas faixas mais bem sucedidas comercialmente do disco, "Heart of Gold" e "Old Man". Graças a elas, Harvest tornou-se o disco mais conhecido do canadense - e a porta de entrada para muitos ouvintes. 

Se você olhar bem, Harvest não é um dos discos mais uniformes de Young. Ele mistura algumas ideias marcantes e relevantes para a carreira do compositor: canções "rurais", como "Are You Ready for the Country?" e a belíssima faixa de abertura "Out in the Weekend" (que me ensinou muito sobre a questão da distância do 'ser amado'), rockões que dão um tapa na cara do conservadorismo sulista ("Alabama", espécie de continuação de "Southern Man", do álbum anterior) e músicas orquestradas, com o apoio da London Symphony Orchestra - a faixa mais sem graça do disco, "There's a World", e a favorita da casa, "A Man Needs a Maid", com seu jeitão de tema principal de filme. Sempre fico com os olhos lacrimejando já nos versos iniciais: "my life is changing in so many ways/I don't know who to trust anymore".
Mas é, talvez, na dobradinha final que o disco mostra seu lado mais interessante. Composta em 1971, sobre o uso de heroína do guitarrista Danny Whitten, do Crazy Horse, "The Needle and the Damage Done" é uma das músicas mais pungentes do repertório de Young, e viraria um hino anti-drogas (sobre ela, o cantor declarou certa vez: "Eu não sou um pastor, mas é que eu vi muita gente boa morrendo por causa disso"). Seu verso final é de uma beleza assustadora: "every junkie's like a setting sun". (Whitten morreria em novembro de 1972, vitimado por uma overdose).

Na sequência, palmas invadem a gravação, como se fosse entendido que, apesar de tudo, o show deve continuar, e tudo descamba na orgia guitarrística de "Words (Between the Lines of Age)": "the King started laughing and talking in rhyme/singing words/words, between the lines of age".Eu não brinco quando digo que Young é um dos guitarristas mais importantes que existem - seu destrambelhamento pra fazer solos é a base de todo um estilo que influenciaria o rock independente dos anos 80 e 90. (Recentemente, ele ficou em 17º lugar na lista dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos da revista Roling Stone).

Se você é um cara esperto, já devia ao menos ter escutado essa lindeza de disco. Se não escutou, não me encha mais o saco e vá logo ouvir (em link do Grooveshark).

PS: 20 anos depois de seu lançamento, Neil Young reuniu a banda que o acompanhou em Harvest para gravar outro disco: Harvest Moon. É um belo trabalho, que contém ao menos quatro faixas que você também precisa ouvir: "From Hank to Hendrix", "Harvest Moon", "Unknown Legend" e "One of These Days".

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