18 de abr de 2013

Ó, Pá: Seixas da Beira

Uma interrupção na nossa programação normal para um texto extremamente pessoal - já avisando desde o início pra ninguém reclamar. Sigam-me os bons (ou não).

Foi há coisa de um ano atrás que eu decidi vir fazer intercâmbio em Portugal. A escolha tinha lá suas razões mais lógicas e racionais, afinal, é um país barato, com clima mais amigável que o da maioria dos países europeus, com uma língua que se parece o português-brasileiro (sério, são dois idiomas diferentíssimos) e cujas instituições foram base para a sociedade brasileira. Mas também tinha lá seu lado emocional, afinal, é da terrinha que veio toda a minha família. Três dos meus quatro avôs são portugueses, e a avó que é brasileira é filha de portugueses. (Sim, meus dois avós eram padeiros, mas só um deles se chamava Manuel, e o outro não é o Joaquim).

A casa
Desde pequeno eu convivi com piadas de português e almoços de família regados a azeite Gallo (com direito aos Capelas todos cantando "ó rama ó que linda rama, ó rama das oliveiras" com sotaque e tudo), sempre torci o nariz quando minha mãe resolvia fazer bacalhau e durante muito tempo torci pela seleção portuguesa com certa dedicação que só perdia para a brasileira (especialmente na Copa de 2006, quando o escrete luso era comandado pelo Felipão e chegou pertíssimo de levantar a taça). 

Entretanto, apesar de toda essa proximidade e de Lisboa ser uma cidade incrível, eu sentia que havia algo faltando nessa viagem. Algo que desse sentido a toda essa jornada (desculpa lá, Campbell, mas é verdade) e que explicasse o que é que de fato eu estava fazendo em Portugal. Acho que eu consegui encontrar a resposta depois de três horas de uma jornada de carro por largas rodovias e estradinhas de terra que quase fizeram o possante Peugeot 107 alugado atolar na areia, quando coloquei os pés na aldeia onde nasceu o meu avô, o seu Armindo Capelas, e de onde ele saiu, no começo dos anos 1950, para tentar ganhar a vida no Brasil. 

Eu (num tempo que usava camisetas do Mickey e era carregável no colo), meu vô e meu pai
É clichê dizer, mas um bocado de coisas fizeram muito mais sentido pra mim assim que eu cheguei lá, encontrei a dona Celestina e o seu Manuel, primos do meu avô (e portanto, meus primos em terceiro grau),  andei por aquelas ruas apertadas, habitadas hoje apenas por velhinhas e velhinhos, como se quase esquecidas pelo tempo. Olhar para aquele mundaréu de terra cheias de pedras e um bocado secas, conversar com os vizinhos que conviveram com o meu avô e conheceram-no talvez bem melhor do que eu (seu Armindo viajou fora do combinado em 2004, quando eu tinha 12 anos), ver o brilho nos olhos deles quando eu dizia que era seu neto ou a dor quando eu lhes contava da sua partida, tudo isso me deu uma sensação de pertencimento que há muito eu não sentia. 

Esse negócio de mexer com sangue e raízes da gente me bota comovido como o diabo - lembro de quando, no ano passado, procurei a aldeia no google maps e me arrepiei e chorei sozinho às 3 da manhã imaginando como seria chegar lá. Estar de frente à casa onde meu avô nasceu (e onde eu aprendi a ler, na minha primeira vinda a Portugal, em 1996) me fez acreditar que qualquer plano pode dar certo. Afinal, se um português com o curso primário saiu de sua terra, chegou em outro continente e conseguiu "fazer a América", constituir família e formar os filhos "doutores",  tudo há de ser possível nesse mundo. É só querer. 



PS: Perdoem todos esses clichês, mas é a verdade.

PS2: Um causo engraçado. Chegamos na vila pela entrada "não oficial" (culpa do GPS), e depois de muita poeira encontramos três velhinhas e um burrico em uma bifurcação. Perguntei: "é pra lá?". Uma das senhoras: "é". Fomos em frente e chegamos... num barranco. Voltamos. A mesma velhinha perguntou: "O que é que cês tão fazendo aqui?". Eu: "Vim procurar a casa do meu avô, meu nome é Bruno Capelas!". "Ah, sei! Tô sabendo! Ô menino, vem cá!" (e nisso, ela chama talvez o único pré-adolescente da aldeia para nos guiar até a casa dos meus primos). O menino, meio contra à vontade, pegou a bicicleta e saiu num pinote, como se estivéssemos jogando Need For Speed: Aldeias de Portugal. É ridículo, mas sim, quase conseguimos perder um moleque numa bicicleta sem marchas de vista.
Dona Celestina e seu Manuel Capelas

PS3: Um parágrafo à parte pro seu Manuel e pra dona Celestina. Ao contrário do que eu vejo aqui em Lisboa, os portugueses "do interior" do país são extremamente receptivos - algo que acontece um pouco com a minha própria família. Mesmo humildes, os dois não se fartavam de oferecer biscoitos, bolinhos, refrigerantes, sucos e outros quetais para mim e para o Maurício (meu companheiro de viagem), o que me deixou bastante encabulado de ter almoçado antes de chegar lá. Além disso, ficou guardada na minha memória gustativa a jurupiga (sim, sem N), uma bebida feita pelo próprio Manuel que é a mistura de vinho com aguardente, servida geladíssima. Eu não sou de beber, mas... 

O seu Álvaro Estoira e sua mulher, dona Maria de Lourdes
PS4: Há alguns anos, a família resolveu se desfazer da tal casa (que ilustra um quadro na minha sala de estar no Brasil), uma vez que a propriedade dava mais trabalho do que era utilizada. Qual não foi minha surpresa ao chegar lá e encontrar uma plaquinha de "vende-se" na porta. Perguntei o preço à vizinha: "6 mil euros. E tá cara!". Confesso que deu uma vontade de economizar até os últimos tostões nos próximos anos, viu?

PS5: Um dos vizinhos do meu avô na aldeia é o seu Álvaro Ferreira, conhecido na região como Álvaro Estoira. Perguntei o porquê do apelido. Ele respondeu: "Herdei do meu pai, que era conhecido por aqui por soltar fogos de artifícios. O povo todo da aldeia via e dizia: "estoira, estoira!". :). Nem preciso tentar explicar  a razão de ser de "Capelas", né?

PS6: Durante essa viagem à Europa, já visitei o Camp Nou e o Santiago Bernabeu - pontos turísticos obrigatórios pra qualquer fã de esportes. E como não podia deixar de ser, também bati cartão no campinho de futebol da aldeia, o Estádio Luso-Brasileiro (homenagem mais que justificada: boa parte da população das Seixas migrou para o Brasil, e em alguns momentos dos anos 1970 e 1980, a terrinha sobreviveu com recursos mandados pelos parentes imigrados). O registro está aqui abaixo.
Às portas do Estádio Luso-Brasileiro


5 comentários:

  1. Esta aldeia sofreu com o abandono dos seus habitantes para outras paragens.
    Estes, muito poucos, nada retribuiram à mesma.
    Talvez só alguns pagaram as dividas feitas aos residentes, para emigrarem.

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  2. Bruno, literalmente viajei no seu texto da Seixas!
    Como você, também com os quatro avós da lá, sempre sonhando em conhecer as minhas origens, me emocionei muito, pois parece que eu mesmo escrevi tudo isso.
    Oriundos da Seixas, os Capelas, os Monteiros e os Fernandes se juntaram em Santos, todos no ramo de padaria.
    Minha avó Rosa Monteiro e meu avô Bernardo Fernandes nasceram na Seixas.
    Esses Capelas dos quais fala são de Santos? Lembro de um deles que tinha um bar e restaurante na Av. Campos Sales esquina com Brás Cubas.
    Maria de Lourdes Capelas Monteiro, minha querida prima, nascida em Santos, mora hoje em Oliveira do Hospital, próximo à Seixas.
    Gostaria de saber mais a respeito disso tudo que viveu lá.
    Um abraço.

    Manoel Diniz Fernandes
    manecodiniz@gmail.com

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    1. Olá Diniz, como você e o Bruno, minha avó também veio desta pequena aldeia. Ela, Maria Eliza, filha da Dona Zilda, morreu de saudades vendo as fotos, principalmente a primeira foto, da casa da Tia Laura. Ela diz que tem lembranças de ir buscar água lá com um cântaro na cabeça!
      Eu também tive essa dúvida sobre os Capelas serem de Santos, por causa desse mesmo bar e restaurante. É muito bom encontrar pessoas com as mesmas raízes haha
      Abraços,
      Carolina Terzi

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  3. Adorei rever o Aldeia onde nasceu meus pais e avos.
    Onde pude conhecer,adoro a Seixas

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  4. Nossa muito bom o relato, ainda tenho muita família Morando na Seixas, é sempre comovente todas essas histórias, afinal faz parte de nossas vidas❤️

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