19 de mai de 2013

O Lado B da Virada Cultural: Cinema Erótico Japonês

A Mulher Inseto, de Shohei Imamura

O dono do Pergunte ao Pop pode não estar em São Paulo para curtir a Virada Cultural (e ter sua carteira levada por trombadinhas pra cantar Bob Dylan), mas o Pergunte ao Pop está! Victor Francisco Ferreira, que já escreveu sobre shows de Red Hot Chili Peppers e Os Pontos Negros, dessa vez colabora com este espaço falando sobre... cinema erótico japonês. 

“O que tem movido a Virada é a música”. A frase é de Juca Ferreira, secretário de cultura de São Paulo. Se as apresentações musicais são as mais procuradas e badaladas da Virada Cultural, não seria errado dizer que as sessões de cinema sejam o “lado B” do evento. Ainda mais quando reúnem uma coleção de filmes eróticos japoneses.

A coletânea Pink Porn, exibida no Cine Dom José durante a Virada Cultural 2013, apresentou diversos clássicos do cinema erótico japonês. O primeiro deles foi A Mulher Inseto (Nippon Konchûki, 1963), do diretor Shohei Imamura.

Do lado de fora, enquanto a fila já somava três dezenas de pessoas, Luiz Santos, segurança do Cine Dom José, comentava sobre o dia a dia do estabelecimento. “Aqui só entram maiores de 18 anos, né. Filhos que venham com os pais, tenham mais de 13 anos e os documentos podem entrar, mas os pais têm que autorizar”, explica.  “Eu não deixaria entrar não. Mas cada pai que decide”, opina.

A equipe que trabalhava no Cine Dom José fazia questão de avisar a quem perguntasse que eles não tinham visto nenhum dos filmes a serem exibidos. “A prefeitura mandou sem tempo hábil para a gente assistir. Acabaram encaminhando hoje”, conta Diego, que se diz amigo do proprietário do cinema. “A gente só procurou um pouco para conhecer esse cenário que eles exploraram. Eu não sou muito adepto desse tipo de filmes, mas a gente viu que muitos filmes que a prefeitura mandou são grandes ícones do gênero”, completa.

Os portões finalmente se abriram e a sessão começou às 18h05, com um pequeno atraso de cinco minutos. Com capacidade total de 600 lugares, a exibição teve 247 espectadores. Muitos deles ou saíram antes do fim ou entraram com o filme em andamento.

Dentro da sala, o forte cheiro de desinfetante irritava as narinas e deixava-me em um pequeno dilema: comemorar o fato de que o lugar foi limpo ou ficar preocupado com o que pode ter acontecido ali para ser necessário tanto produto de limpeza como foi usado.

Na tela, as cenas passavam de forma confusa, com abuso de congelamentos de imagens em momentos chave da narrativa. A história começa na década de 1910, com o nascimento da menina Tomé Matsuki na pobre zona rural japonesa da época. O filme conta praticamente toda a história da vida de Tomé, e faz saltos temporais enormes e em grande quantidade. De 1918, passa-se a 1924, depois para 1942. Em seguida para 1945, com o Japão perdendo a Segunda Guerra Mundial. Depois, salta para 1950, 1951, 1952 (este ano tendo apenas uma cena de menos de um minuto), 1955, 1960 e 1961. Ufa!

Segredos Por Trás da Parede, de Koji Wakamatsu
Nessa epopeia numérica, Tomé pratica incesto com o pai, tem uma filha, Nobuko, e vira prostituta em Tóquio. Numa das cenas mais bizarras da película, ela está com o pai no campo e reclama do excesso de leite em seus seios. “Nobuko não mama o suficiente. Me dói”. Em seguida, seu pai Chuji não hesita em “ajuda-la” e começa a, digamos, beber o excesso de leite “direto do gargalo”. Como se uma vez não fosse o bastante, a cena voltaria a acontecer. Desta vez com Chuji no leito de morte pedindo leite e Tomé voluntariamente oferecendo sua mama direita para o pai.

Como já era de se esperar, a grande maioria (para não dizer a totalidade) das 247 pessoas que estiveram presentes na exibição de A Mulher Inseto não conhecia o filme. Era comum o entra e sai de pessoas no meio da sessão. Sem falar nos grupos que preferiam ficar de pé na parte de trás da sala e conversar em voz alta, como se estivessem num boteco. “Então pessoal, não pode ficar em pé aqui não. Tem lugar pra sentar. E não pode falar alto que atrapalha os outros”, disse Santos entrando na sala e dando uma bronca em quatro homens que conversavam animadamente há mais de dez minutos.

Após duas cansativas horas, e o término da exibição, todos saem para a rua, onde nova fila já se formava para a exibição do segundo filme, Segredos Por Trás da Parede (1965), do diretor Koji Wakamatsu. Os primeiros da fila para a segunda exibição eram os namorados Vivian Santana e Alan Fernandes. “Viemos por curiosidade mesmo, sem expectativa nenhuma. Vi na programação e quis saber como era”, diz Vivian. Assim como muitos outros, os dois saíram no meio da sessão.

Durante os dias de expediente normal, o Cine Dom José abre às 9 horas da manhã e exibe filmes pornôs ao módico preço de R$ 12,00. Estudantes e idosos pagam meia. “Normalmente o público é mais agitado. Na Virada Cultural é diferente. As pessoas vêm para ver o filme mesmo”, reflete o segurança Santos, que trabalha há mais de uma década no Cine Dom José.

As desinfetadas cadeiras do Cine Dom José
Às 20h30 começa a segunda exibição. Segredos Por Trás da Parede é uma obra tecnicamente melhor acabada que A Mulher Inseto. Logo nas primeiras cenas é possível perceber truques de câmeras e de som interessantes.

A história se passa no Japão pós-Segunda Guerra Mundial, em um conjunto habitacional. O principal tema é o voyeurismo, com um jovem estudante observando a vida dos vizinhos. Entre eles, uma mulher que trai o marido com um ex-ativista comunista, uma mulher que deliberadamente deixa cair suas calcinhas da varanda e a sua própria irmã.

A sessão encerrou-se aproximadamente às 21h20, mas eu já havia deixado a sala meia hora antes. Preferi esperar o fim da sessão no hall de entrada. O casal Davi e Mariana foram duas das 200 pessoas que assistiram ao filme. “Eu esperava que fosse pornô mesmo, mas é erótico e bem bonito o filme. Eu prefiro, acho melhor que pornô. Parece que é mais feito para o público feminino”, conta ela.

O já citado Diego, que diz ser amigo do dono do Cine Dom José e estava como um dos responsáveis do local durante a Virada Cultural, contou como foram as outras edições da Virada naquele espaço. “Já houve aqui filmes de vampiros, filmes de ação, Godzilla. Acho que isso foi o que mais estourou aqui na Virada”, conta. 

O Cine Dom José (nas portas de ferro azul claras)
“As pessoas às vezes tem curiosidade de saber como é um cinema como esse, mas preferem, por motivos pessoais, não virem nos dias normais. Elas querem ver na Virada. Já chegamos a ter num dia 2 mil, quase 2 mil e 500 pessoas. As sessões chegam a ter em volta de 550 pessoas, apesar de ter lotação máxima de 600. A gente deixa 550 pra que as pessoas não tenham problemas”, explica Diego.

“A gente queria que passasse filme normal aqui, igual os filmes de ação que houve em outro ano. Mas, como já mandaram a programação pronta, vão ser esses filmes com cenas eróticas aí mesmo”, reclama o segurança.

Relaxa, Santos. A tela do Cine Dom José com certeza já projetou cenas mais explícitas do que apenas mamilos salientes debaixo da camisola de uma prostituta japonesa. 

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