17 de mar de 2012

Um Ogro Verde e Nojento Pra Chamar de Seu

Como as coisas andam bem corridas por aqui, mais uma vez fico devendo um texto novo grandão pra vocês. Mas, ainda daquela leva do fundo do baú, achei esse texto bacaninha sobre a saga Shrek, que fiz para a revista Cinéfilos, da Jornalismo Júnior, empresa junior da ECA. Saí da revista em 2010, mas vale ler o que o pessoal tem escrito por lá!

Estamos em junho de 2001 e os estúdios Disney acabam de passar por uma de suas melhores décadas na história, com filmes como A Bela e A Fera, O Rei Leão e Mulan - sem falar no estrondoso sucesso de sua parceira 3D, a Pixar. Eis que então surge um ogro verde, viscoso e nojento disposto a acabar com esse monopólio - e, ainda por cima, preparado para satirizar todos os contos de fada que fizeram a história do simpático camundongo. Hey, Shrek!

Na época podia parecer um tanto quanto improvável que uma figura tão asquerosa quanto Shrek pudesse agradar a tantos gostos, faixas etárias, etnias e sexos ao redor do mundo: uma criatura arrogante, intolerante, antissocial e de humor no mínimo duvidoso - capaz de fazer piadas infames sobre arrotos, flatulências e o suposto diminuto órgão sexual de um rival. 

Vários aspectos, entretanto, ajudaram a Dreamworks - estúdio responsável pela série e capitaneado por Steven Spielberg (você-sabe-quem), Jeffrey Katzenberg (ex-diretor da Walt Disney Company) e David Geffen (produtor musical) - nessa empreitada. Entre eles, podem ser citados rapidamente os bons dubladores - o protagonista dos filmes é dublado em inglês por Mike Myers, e pelo menos nos dois primeiros filmes, em terras tupiniquins, pelo saudoso Bussunda – e as ótimas trilhas sonoras - de Leonard Cohen a Neil Diamond, passando por David Bowie, Wings e Led Zeppelin. Não se pode esquecer também da ampla gama de referências citadas com muito, mas muito humor - os programas de Namoro na TV, as cenas de luta de Matrix, os filmes de high school, sem falar, claro, na subversão de mil contos de fada e congêneres - ou você algum dia pensou que Pinóquio poderia soar como um garoto pervertido?

Mas as crianças não são atraídas por todos esses argumentos acima, oras bolas, já que eles estão no “nível adulto” de humor. É bem mais provável que os pequenos gostem do ogro verde por ele ser atrapalhado, verde, provocar risos com feições que deveriam assustar, falar muita besteira, e ser um tanto quanto próximo daquele ideal de que “criança gosta de coisa mal feita” - não no sentido de imperfeição, claro. O universo colorido dos filmes e o bom humor dos coadjuvantes - entre os quais, se destaca de longe o Burro dublado por Eddie Murphy no original - também ajudam a balançar o coração dos petizes. 

A evolução do personagem 
Uma leitura um pouco mais profunda – mas não muito – pode, entretanto, ser feita a partir da trajetória de Shrek na narrativa dos quatro filmes. Apesar de perverter os elementos à sua volta, a criatura asquerosa é um herói um tanto quanto convencional. Os filmes sempre começam bem, mas logo de início nosso protagonista tem seu “mundo comum” perturbado por um problema, sai dele em busca do retorno do status quo, conquista aliados e inimigos em sua trajetória e passa por algumas provações até finalmente receber seu espólio por tanta aventura - seja ele um pântano quase inabitável ou uma princesa verde, a certeza de um sucessor decente ou ainda uma vida familiar feliz. 

Além disso, pode-se dizer que a saga de Shrek é, de certa maneira, o caminho da vida de uma pessoa qualquer dos quinze aos quarenta e cinco anos. Em Shrek, de 2001, ele é um adolescente trancado em seu quarto (leia-se pântano) que de repente se vê forçado a conviver com colegas irritantes (o Burro falante) e percebe-se apaixonado sem saber lidar com o amor. 

Na primeira seqüência, Shrek 2, de 2004 - particularmente o melhor dos filmes da tetralogia - , o ogro verde se vê saído da adolescência, precisando encarar um “emprego” - o de príncipe - e os relacionamentos familiares e amorosos com maior profundidade. Em Shrek Terceiro, de 2007, o problema é encarar a chegada da paternidade e a relutância em assumir compromissos (ou o arrependimento de tê-los feito).

Por fim, em Shrek Para Sempre, de 2010, Shrek é quase um dublê do personagem de Nicolas Cage no drama-família Um Homem de Família: ambos passam por uma crise de meia-idade e, ao passar por uma transformação mágica, acabam por ver qual a escolha certa que fizeram para suas vidas – cá entre nós, um argumento um tanto quanto fraco e melodramático, que torna o encerramento da série justamente a sua pior parte. 

Criança ou quarentão, ogro ou humano (como chega a tomar forma em parte do segundo filme), o monstro verde, de humor por vezes irônico e desdenhoso, que inicialmente era uma grande cartada de risco da Dreamworks, acabou por se revelar um grande sucesso de crítica e, principalmente, de público. Arriscaria dizer que ele é multifacetado, com características que podem muito bem ser escolhidas por qualquer espectador à La carte: as crianças, os adultos, os adolescentes: cada um pode ter sua parte de Shrek, um ogro verde e nojento, mas muito, muito carismático, pra chamar de seu.

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