27 de mar de 2012

Orgulho e Preconceito

Entrevistei o Lucas da Fresno essa semana para o trabalho - em uma matéria bem bacana que estamos tramando por lá - e lembrei-me desse texto, que originalmente foi escrito para o Pop to the People, em sua fase de recesso, e acabou pousando lá no Scream &Yell. É um dos meus textos favoritos, por sua capacidade de ir um pouco na contramão do que se pode dizer por aí. No final do texto, tem um clipe recente que eles gravaram para "Sentado à Beira do Caminho" - não chega nem aos pés da original, mas é interessante ver o que eles aprontaram.  

Não é segredo pra ninguém que nos últimos dez anos – pra não dizer quinze ou vinte – a Internet mudou a maneira como a música é produzida hoje. Mais do que isso, ela se tornou um grande ambiente de divulgação para muitos artistas. Entretanto, se avaliarmos com mais atenção, conquistar o sucesso entre os internautas é apenas conquistar um determinado nicho, composto geralmente por jovens de classe média. O “tão-falado-e-sonhado” sucesso de público, com crianças e velhinhos de todas as cores, credos e salários cantando pelas ruas os refrões de uma banda, é um passo – longo – que vai um pouco além dos arquivos mp3 e das rádios especializadas. O Fresno, talvez o melhor exemplo brasileiro que soube aproveitar o espaço virtual para trazer os holofotes para si mesmo, agora procura superar esse novo desafio – e também o preconceito de muitos ouvintes – em seu novo disco, Revanche

Antes de tudo, cabe explicar ao leitor a superlativa frase do parágrafo acima, contando a história da banda gaúcha. Formado em 1999, em Porto Alegre, por Lucas Silveira (vocal e guitarra), Gustavo Mantovani (guitarra), Rodrigo Tavares (baixo) e Bell Ruschell (bateria), o conjunto lançou três discos independentes - hoje raros, sendo que alguns chegam a custar ridículos R$150 em sebos especializados - que juntos venderam 20 mil cópias apenas no boca a boca do público via internet, utilizando-se de sites como o TramaVirtual, o fotolog.com e até mesmo o orkut. Em 2008, após assinar com o selo Arsenal, do "produtor musical" Rick Bonadio, procuraram de alguma maneira flertar com o pop - mas sem grandes resultados - no disco Redenção. O que aconteceu foi na verdade que eles se tornaram quase unanimidade para o público alvo que já tinham conquistado, sendo um dos grandes baluartes do que se convencionou chamar de emo – um estilo que tem muitos fãs ardorosos, mas também tem detratores convictos na mesma proporção. 

Talvez o maior obstáculo que eles tenham que superar nessa nova batalha a fim de conquistar todo mundo, desde o seu irmão de 5 anos, até o seu avô, passando pela sua empregada e pelo seu colega de trabalho com síndrome de underground, é o preconceito. É bem possível que ao ler o nome “Fresno” no primeiro parágrafo, você tenha feito uma cara feia e pensado: “vou ler só pra poder discordar do que o cara vai falar”. Queira ou não queira, eles ainda são os mesmos caras responsáveis por pérolas do movimento chorão como "Cada poça dessa rua tem um pouco das minhas lágrimas" e "Cantando, e mais do que isso gritando, e às vezes até confessando que eu não sei amar" e ficaram estigmatizados por isso. E não dá pra negar que uma das grandes forças - ou defeitos, dependendo do ouvinte - do Fresno são as narrativas confessionais de Lucas Silveira, alguém que parece que já sentiu na pele as palavras que canta. Mas é uma faca de dois gumes, porque o que ao mesmo tempo pode servir de fator de identificação pode soar brega, forçado ou simplesmente uma versão com guitarras do chororô das músicas sertanejas dos anos 90. 

Em Revanche, esse estilo de poesia está inegavelmente presente, porque ele faz parte do DNA fresniano - e é claro que isso pode afastar quem se arrisca a ouvir a banda pela primeira vez. Mas uma mudança sensível, e que pode melhorar esse aspecto da banda, é que, em uma mesma canção ele pode vir impregnado também de um lado vingativo. É o caso de "Die Lüge" ("a mentira", em alemão), que se inicia com algo do calibre de "Te dei meu sangue pra você pintar a parede da sala de estar" e chega ao refrão com sangue nos olhos: "Que cara você vai fazer quando a sua casa desabar?"; ou da faixa-título, onde Lucas canta com voz vigorosa: "Não estou morto, apenas fui ferido/Quero viver muito mais/Além do que você programou". Ainda vale comentar a maior presença de baladas que cantam amores felizes, uma evolução para artistas que são acusados de serem "suicidas de butique". "Nesse Lugar", que é o exemplo mais bem acabado dessa idéia, é uma música que não tem vergonha de dizer algo como "Nesse lugar o que eu mais quero é ficar pra sempre aqui com você". 

No aspecto da música - e não só da temática - o preconceito também pode atrapalhar, ou melhor, ainda, assustar. Para alguém não acostumado com o universo do rock, os primeiros trabalhos da banda podem soar "barulhentos" ou "sujos" demais, afugentando o ouvinte em potencial que pode até se identificar com o que as letras da banda querem dizer, mas é incapaz de suportar guitarras em alto volume. E reduz o potencial radiofônico das músicas ali presentes - um hardcore à moda da Califórnia poderia tocar numa rádio jovem, como a 89 FM, mas dificilmente ultrapassaria a fronteira para a Tupi FM ou para a Eldorado. Revanche também é muito bem resolvido nesse aspecto, por dois fatores: o primeiro é a produção redonda de Rick Bonadio, capaz de limpar arestas das faixas mais barulhentas - brincando muitas vezes com sintetizadores, à moda do rock-anos-00 - e deixá-las palatáveis, sem a sujeira característica do rock independente. O segundo - e o mais importante - é a evolução musical do conjunto, por terem iniciado a produção de baladas capazes de fazer um estádio - veja bem, um estádio - inteiro cantar junto com os celulares e os isqueiros acesos. É o que facilmente pode acontecer na bonita "Canção da Noite (Todo Mundo Precisa de Alguém)" - cujo apelido antes das gravações era Radio Ga Ga, tal a influência de Queen nela - ou na condução que lembra Smashing Pumpkins de "Porto Alegre". Ou ainda na nostálgica "Quando Crescer" e na melancólica "Não Leve a Mal". De certa maneira, são hits prontos para conquistar as paradas do Brasil inteiro - e não apenas nos grandes centros urbanos, como é o caso de hoje em dia. 



Claro que eles não são a oitava maravilha do mundo - estão longe disso, pra falar a verdade. A banda ainda tem suas limitações: embora o disco seja muito bem tocado e produzido, falta um pouco de originalidade quanto a certas progressões de acordes, e até mesmo um pouco de apelação nesse uso, como o clássico começo de música com piano-e-voz esperando a explosão da bateria no refrão; e as letras melhoraram muito do começo da banda para cá, são interessantes e bonitas, mas ainda falta bastante para eles chegarem a um nível que seria considerado como genial ou algo do tipo. A música de hoje ainda não chegou a um patamar no qual uma frase como "Eu vasculho as caixas do meu tempo tentando achar um dia a mais pra viver com você" pode ser aceita como obra-prima. É, pelo sim, pelo não, mais uma receita de como agradar o público adolescente. Citando uma frase clássica do filme Quase Famosos, é "um olhar crítico sobre uma banda mediana na dura caminhada para o estrelato" - o que não é demérito nenhum, diga-se de passagem. 

A grande força de Revanche, mais do que as mudanças nas letras ou nas melodias, é mostrar uma banda que não teve vergonha de arriscar um pouco, nem preguiça de tentar evoluir, enquanto poderia ficar na manutenção do som e do estilo de vida. É possível que o que foi feito aqui seja suficiente para lotar estádios no país inteiro e "ultrapassar a barreira das AM, FM e dos elevador (sic)" porque não é um trabalho ruim, é honesto e competente. Mas, para quem deseja estar no panteão pop, no fictício "Grande Livro da História do Rock", ainda se trata de uma longa jornada. O que fica para os próximos capítulos é se o Fresno vai ter realmente forças para caminhar tudo isso ou se Revanche é apenas um pequeno passo dado nessa direção.

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