14 de mar de 2013

Para-Lá-Tim-Bum: Madri, parte 1


Depois de uma semana sem dormir direito (por culpa de aulas, noitadas e inquietações pessoais), acordei às cinco e meia da manhã de uma quinta-feira chuvosa em Lisboa para embarcar em minha primeira viagem ao estrangeiro. (Se minha pátria é minha língua, a cidade em que vivo agora é apenas um lugar um bocado distante de casa). O bilhete da Iberia (que estava em greve naqueles dias) e o ingresso para o show do Josh Rouse não escondiam meu destino: Madri, acompanhado de uma galera animada e travessa que prometia aprontar altas confusões na capital espanhola.

<3
Pegamos o vôo às 15 pras 8 da manhã, e desembarcamos em Barajas perto das 10 horas - mas, uma hora depois, mal tínhamos saído do aeroporto gigantesco, uma das principais rotas aéreas da Europa. Não sem antes ter alguma confusão (meu cérebro começava a entrar em pane por usar três línguas ao mesmo tempo e misturá-las todas em uma frase só, como "yo estoy hospedado in the hostel"), compramos o Suplemento Aeroporto - espécie de bilhete de metrô que te leva de Barajas até a cidade por 5 euros - e partimos para o hostel em Chueca, perto da Gran Vía e (eu só descobri depois, risos) reduto GLS da capital espanhola. 

Como o check-in só ia rolar lá pelas duas da tarde, aproveitamos para bater perna pela cidade e dar algum jeito na fome. Minha primeira refeição madrilenha foi também a mais cara, a melhor e a mais espanhola que eu poderia querer: um menu do dia, composto por primeiro prato (paella!), segundo prato (jamon com huevos rotos; ou seja, presunto cru, ovo frito e batata frita), bebida (Coca-Cola, é claro) e sobremesa (um brownie mequetrefe), por 10 euros. 

O palhaço da velhinha
Depois de encher a barriga, botar as malas dentro dos lockers e confundir a chave "amarilla" com uma tal de Marília (risos), resolvemos começar a turistar pelo Thyssen-Bornemisza - um museu criado em 1993 a partir da coleção particular da família que dá nome à instituição. Os mais incautos poderiam dizer que o TB (vamos facilitar) é o patinho feio de Madri, se comparado aos portentosos Reina Sofia e Museo del Prado, mas isso seria reduzi-lo demais. Com um acervo permanente que vai do meio da Idade Média até os anos 1960, o terceiro museu da capital espanhola (e o único onde estudantes com menos de 25 anos pagam (6 euros; a entrada normal é 9)) tem poucos protagonistas, mas oferece a um iniciante fã de artes um bom panorama das mudanças que a pintura sofreu em quase um milênio de registros. 

Entretanto, o TB guarda dois dos meus quadros favoritos da viagem: o espertíssimo Women at Bath, do Roy Lichtenstein, e o campeão dos corações partidos Hotel Room, do Edward Hopper - o único da viagem que me fez verter lágrimas de verdade. Um pouco mais adiante, no meio da seção de arte moderna, o museu ainda me guardava um dos melhores momentos da viagem. Em frente a Red Man With Moustache, de De Kooning, uma velhinha espanhola riu para mim e falou: "estou aqui desde a cinco da tarde com uma excursão. Para mim esse quadro é um palhaço, e naquele outro há um touro, mas não consigo entender nada". Sua amiga completou: "Eu só espero conseguir entender alguma coisa quando chegar na cafeteria". Amor <3. 



O resto do dia só não foi melhor porque o tempo não colaborou: pegamos dias chuvosos em Madri, uma cidade onde a água não cai do céu, mas sim vem pelos lados junto com um vento forte desgraçado (que atrapalhava muito as fotografias, vale dizer). Um relax de meia hora no hostel foi o suficiente para recarregar as baterias pra ir botecar no El Tigre, um bar de tapas baratíssimo "do lado de casa". E duas horas dentro de um bar foi o suficiente para me apaixonar pelo modo espanhol de viver a noite, por uma simples razão: comida de graça.

Até você fazer seu primeiro pedido, um bar espanhol costuma ser como qualquer bar normal. Mas aí, duas coisas: a) você paga na hora de pedir a bebida, algo que evita a confusão de comandas toda vez que você sai com uma galera; b) toda vez que você pede uma bebida alcóolica (Coca não vale, hmpf), você leva junto um prato de tapas (leia-se: petiscos deliciosos), que podem ser bolinhos fritos de carne de porco e massa (croquetes espanhóis), batatas bravas, torradas com jamon ou lombinho condimentado ou salame, hamburguinhos e asinhas de frango. 

Óbvio que meu coração glutão chorou quando viu isso - e meu bolso também: com 5 euros, dá pra beber bem e comer bem; e se você for com amigos, acabar com todos os pratos vira uma tarefa árdua (e uma questão de honra). Ficamos por lá das dez à meia noite e meia, porque era preciso dormir cedo pra conseguir ver bem tudo o que o Museo del Prado nos reservava. Mas isso fica pro próximo post. Até daqui a pouco. ;)

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