15 de mar de 2013

Para-Lá-Tim-Bum: Madri, parte 2

Eu quero aquele ali, moço!

Muito sono e dor nas pernas eram os meus principais companheiros na manhã de sexta-feira - e não havia aspirina e café que bastassem para segurar a onda, então o jeito era seguir em frente e pegar chuva para ir até o Museo del Prado, em uma jornada que parecia ser breve. Até o momento que eu decidi que não ia bobiar e perder a chance de ver nenhum quadro maravilhoso e escondido no museu. Grande erro.

A Calle de Alcalá - e a chuva
Não dá pra negar: o Prado (onde estudantes até 25 anos não pagam (ê); entrada normal, 14 euros) é um dos museus mais incríveis que existem "por aí", com uma coleção que explica facinho facinho (e com belas obras) a evolução da arte através de quase um milênio inteiro.

Mas isso não significa que você precise conhecer toda e qualquer obra que passe pela rota dos seus olhos, o que pode te levar a um rolê de mais ou menos quatro horas. Além do peso nos joelhos, é muito provável que você não aguente mais ver Cristos ou figuras de nobres por umas boas semanas. Então, preste atenção em duas dicas importantes: a) siga o mapa do museu e vá atrás do que eles próprios chamam de obras-primas. É muito difícil que você saia arrependido. b) Coordene sua visita para uma parada rápida no café do museu. Seu estômago vai agradecer. 

Com foco (como seria de se esperar) na arte espanhola, ir ao Prado é um pedido para se apaixonar por As Três Graças, de Rubens, e sair de lá achando que Goya é maior que Picasso: faça a comparação entre as duas Mayas (a vestida e a nua - a primeira é a minha favorita, pelo claro princípio de "respeitar o mistério") e tente não sair mentalmente destruído da sala das Pinturas Negras, que abriga Saturno devorando a un hijo e Dos viejos comiendo sopa, dois dos quadros mais atemorizantes que a humanidade já criou. (Minha tristeza pessoal foi não ter visto El sueño de la razón produce monstruos, gravura do cara que explica visualmente muito sobre "o ato de criação"). 

O CaixaForum
Além disso, o Prado é a casa do piradíssimo O jardim das delícias terrenas, de Hieronymus Bosch, um surrealista perdido no meio do século XV, e do quadro mais fofo de Madri: As Meninas, do Velásquez. 

Colocada com grande destaque na sala 12 do Prado, a pintura de 1656 foi um raro sorriso aberto de orelha a orelha durante toda a viagem: afinal, num primeiro momento, somos nós que penetramos a intimidade das garotas a se arrumarem, mas assim que o quadro nos toca, são elas que estão a nos observar e perceber o efeito que causam em nós. É isso mesmo ou a fome naquela hora deixou impressões irrecuperáveis em mim?

Depois de um almoço com pequenos sanduichinhos (os montaditos que dão nome ao restaurante 100 Montaditos) com frango, carne, peixe, camarão e salsicha, o pessoal voltou pro hostel para descansar, mas eu preferi partir pro CaixaForum, uma antiga estação elétrica transformada em museu pelos arquitetos suíços Herzog & de Meuron. 

Mantida pelo banco catalão la Caixa, a construção é sede para exposições predominantemente de arte contemporânea, como as duas boas que vi por lá - uma sobre a fome no mundo, e outra sobre a importância do caos (um abraço, Goya) na criação e no mundo de hoje, combinando antigas estátuas indianas e africanas com Jean Michel Basquiat. 

Um beijo, Plaza Mayor
Enquanto voltava pro hostel, chovia mais uma vez - o que pelo menos possibilitou fotografar a cidade meio molhada na hora do pôr do sol, um tesão particular para um fotógrafo iniciante. Um descanso rápido de meia hora, uma pausa para trocar as meias molhadas de um dia inteiro e partimos para a Plaza Mayor: no meio do caminho, entretanto, uma manifestação do 8 de Março nos parou (não seria uma viagem de verdade à Espanha sem uma manifestação, não é mesmo?) - e foi surpreendente ver como os espanhois levam passeatas a sério, do respeito ao trânsito da cidade à participação de crianças a velhinhas na rua. 

Se a Plaza Mayor não me impressionou de noite, o mesmo não dá pra dizer da Puerta del Sol - especialmente pela contribuição divertida de um grupo de estudantes de arquitetura fazendo hakas (aqueles gritos de guerra de jogadores de rúgbi) em homenagem às suas colegas de sala. 

Entretanto, devo confessar que o ponto alto da noite foi mesmo a ida ao Museo del Jamón, uma rede de restaurantes madrilenhos que vende presunto cru (jamón, pois) como se fosse mortadela: um sanduíche de pão com uma fatia generosa da carne dos deuses sai por 1 euro; e uma porção de uns 100g, 2,20 euros. Como diria o Dorgi, companheiro dessa viagem, depois disso "nada mais importa". Até mais. 

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