31 de mar de 2013

Para-Lá-Tim-Bum: Barcelona, parte 3


A janela do avião nesse momento mostra só um pedaço da asa, nuvens e um resto de céu azul de um fim de tarde europeu, mas eu olho pra ela e vejo refletidos pedaços e memórias dessa última semana que passei em Barcelona. Os olhos não chegam a marejar, o que é bom, mas o coração quase bate descompassado ao lembrar do sol, das ramblas, dos hambúrgueres, dos prédios malucos de Gaudí, do Mediterrâneo e da sensação de conseguir encontrar um lugar especial no mundo, uma cidade que eu sinto que poderia chamar de casa.

A América é pro outro lado, Cristóvão!
Nos últimos dias, conversando com espanhóis, brasileiros e com gente de qualquer canto do mundo que topasse entender meu inglês ruim ou meu castelhano quase inexistente, percebi que a capital da Catalunha une as coisas que eu mais admiro em São Paulo (o agito cultural, a mistureba arquitetônica, a capacidade de ser uma cidade 'do mundo', as boas lojas de vinil (risos)) e no Rio de Janeiro (a praia, a tranquilidade de uma vida à beira-mar (mesmo que o tempo esteja ruim), a sensação de uma cidade que se sabe bela). 

Uma semana talvez seja pouco para uma análise profunda, mas, entretanto, não consegui enxergar em Barcelona as desvantagens das duas. Ok, vá lá, confesso que tive um pouco de medo dos batedores da carteira quando passeei pelas ramblas ou andei de metrô (pontual, bem espalhado pela cidade, vazio), mas tirando isso, pouca coisa me fez lembrar do que eu não sinto falta em São Paulo. E, ao mesmo tempo, tive a sensação de que eu conseguiria conviver com a beleza barcelonesa - algo que eu senti que não conseguiria fazer e que deve ser massacrante para quem tenta construir uma "rotina de trabalho" no Rio de Janeiro. 

Com a ajuda das bandeiras auri-rubras espalhadas pela cidade e do Museu de História da Catalunha (incrivelmente informativo e atrativo), compreendi que Barcelona nunca foi exatamente uma cidade espanhola por excelência. Desde o século XVIII até os dias de hoje, a cidade das ramblas deu muito mais para a coroa utilizada hoje por Juan Carlos do que dela recebeu, e em boa parte desse tempo, sua cultura foi severamente atacada (a proibição do catalão por Franco durante boa parte do século XX é só um exemplo simples disso). Ouvir um catalão falar sobre a tão almejada independência de sua nação é algo que me arrepiou ao menos uma meia dúzia de vezes nos últimos dias. 



Se, na despedida de Atenas eu sonhei com uma volta à capital grega em um tempo que as nuvens que pairam sobre ela não estejam negras, termino essa passagem pela Catalunha com outro desejo. Que, quando eu volte à cidade, esse povo aberto ao próximo, trabalhador e dono de uma língua escalafobética (onde mais as palavras terminam em G?) possa dizer que vive no seu próprio país, sob a bandeira criada mitologicamente por Guifré el Pilós a partir de seu próprio sangue. 

Se não for demais, peço também que esse retorno não demore muito (a ponto de, sendo bem pessimista, conseguir ver a Sagrada Família ainda em obras, hehe). Hasta luego, Barcelona, sua linda - e que o sol brilhe por aí enquanto a gente não se vê de novo.

Leia mais do Pergunte ao Pop Turnê Europeia:
As duas primeiras partes da viagem a Barcelona
O sol, a crise e o churrasquinho grego de Atenas
Os museus, as avenidas largas e a falta de charme de Madri
Os primeiros dias em Lisboa
A apresentação sublime do Sigur Rós em um campo de touros

PS: Nos últimos textos, tentei não falar muito sobre os lugares e focar nas impressões que tive de Barcelona. Se você sentiu falta de dicas, fique calmo: assim que eu pousar com calma em Lisboa, quero ver se faço um "10 impressões" da cidade, com os meus museus, restaurantes e lugares aleatórios favoritos. :)

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