16 de mar de 2013

Para-Lá-Tim-Bum: Madri, parte 3

Um móbile de Calder no jardim do Reina Sofia

O sábado não deveria ser, mas acabou por se tornar o meu dia mais longo em Madri: depois de acordar às oito da manhã para tomar o café da manhã do hostel (café solúvel, suco de laranja, pão com manteiga e torradas com muita Nutella), tomei banho e parti em direção ao Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia. De lá, para o Santiago Bernabeu, a casa dos galáticos, e à noite era vez de conferir o que aprontaria Josh Rouse em um de seus primeiros shows com o repertório do novo disco The Happiness Waltz. Vamos em frente.

O Reina Sofia
Inaugurado em 1992, o Reina Sofia (de graça para estudantes até 25 anos; entrada normal, 6 euros) é o perfeito complemento para o Museo del Prado: se este último cobre a arte espanhola (e vá lá, mundial) do século XII ao final do século XIX, o primeiro tem uma coleção que abrange a produção artística do país ibérico nos últimos cem anos - com amplo destaque para as obras que refletem o principal incidente histórico da Espanha no período: a Guerra Civil Espanhola. Narrada em um sem número de livros (checar Por Quem os Sinos Dobram, de Hemingway), filmes (ref. cit o grandioso Terra e Liberdade, de Ken Loach) e fotos (o Falling Soldier de Robert Capa), a guerra que opôs republicanos e franquistas motiva o biscoito fino da coleção do Reina Sofia, em uma instalação esperta que prepara psicologicamente o visitante para se deparar com uma das grandes pinturas de todos os tempos, resumida em uma palavra: Guernica

Atocha! 
Obra máxima de Picasso inspirada pelo massacre aéreo cometido por Franco na cidade de mesmo nome, é impossível não se arrepiar todo ao ver a tela. É um choque - e um clichê (e todo clichê tem lá seu fundo de verdade) - mas Guernica é a explicação mais simples da desordem e da crueldade de uma guerra, em forma e conteúdo (em horas menos precavidas daria pra arriscar dizer que toda a razão de ser do cubismo se encerra aqui). Mas, além de se chocar com a obra, sugiro ao leitor uma experiência: reserve alguns minutos da sua visita ao Reina Sofia para observar a reação das pessoas ao quadro. 

Para além de Guernica, o Reina Sofia ainda conta com alguns Mirós interessantes, um charmoso Dalí iniciante (Muchacha en la ventana) e uma mostra pós-anos 60 bem bacaninha (prepare-se para rir muito com um vídeo de John Cage, Water Walk), mas que falha em um ponto muito caro aos brasileiros: ao contrário do que se deveria esperar (e que é proposto pelo próprio artista), o museu não deixa o visitante entrar e interagir nas casas expostas em Tropicália, do Hélio Oiticica. Organizaram errado o movimento, só pra ficar em um trocadilho ruim. A hora da fome já havia passado (e sabe como é pobre, que depois que passa da hora não quer mais saber de comer direito) e resolvi economizar comendo dois lanches de 1 euro no KFC. Depois disso, metrô da estação de Atocha (alô Gusttavo Lima!) até o Santiago Bernabéu. 

Tirando onda na sala de imprensa do Bernabéu
É bem verdade que o Real Madrid passa longe de ser o meu time europeu favorito por ter roubado o Robinho do Santos; por ser o time da ditadura franquista; e por abusar do dinheiro para montar um time galático na época em que eu mais acompanhava futebol. Tudo isso, no entanto, não me impediu de pagar 19 euros e sair sorrindo da visita ao estádio madridista. 

Para quem gosta de futebol, o Tour Bernabéu é entretenimento em sua forma mais pura, com um belo memorial da história do time, feito sob medida para iniciantes e para fanáticos por estatísticas, uma vista panorâmica do estádio, seguida por visitas ao vestiário, sala de imprensa, cadeiras de honra e até mesmo o banco de reservas do clube de Cristiano Ronaldo. O único senão da visita (além, é claro, do time limpar sua história com relação a Franco) é uma placa que homenageia o grande Di Stéfano como "o maior jogador de futebol do mundo". Minha reação vocês podem ver na foto abaixo. 

Após pagar de mala na sala de imprensa, fiquei fazendo hora nas redondezas até o show do Josh Rouse: primeiro sozinho, tentando entender porque aquele pedaço de Madri me lembrava tanto a Berrini, e depois junto do querido Carlitos, da Bia e da Carol (<3 jormats) pra uma caña com tortillas rápida. 

A simple man/singing a simple song
Pequena casa de shows (para umas 200 pessoas, por alto) na Avenida del Brasil (#oioioi), o Moby Dick viu na noite do 9 de março um espetáculo marcado pela simplicidade - mas nem por isso menos empolgante. Americano residente na Espanha há quase uma década, Rouse é um homem de melodias, letras e atitudes descomplicadas, por mais que seu visual de tiozinho hipster tente dizer que não. Lançando The Happiness Waltz, o cara apresentou em pouco menos de duas horas um show bastante ensolarado, com uma banda redondinha. Se em disco o que ele apresenta não é novo (e pode se tornar um bocado repetitivo ao final de quarenta minutos), ao vivo as canções de Rouse ganham um colorido bacanudo, espelhando influências de Neil Young, James Taylor (nas canções românticas), Wilco (nas baladinhas alegres) e no soul de branco ("Comeback", que encerrou o show, contou com alguns agudos risíveis e inesquecíveis). 

As músicas novas fizeram bonito - confira "Julie (Come Out of the Rain)" e "Simple Pleasures" - mas o que ganhou mesmo o público foram os hits antigos do cara, como "Love Vibration", "Sunshine", "My Love Has Gone", "1972" e "Flight Attendant" (esta última registrada pelo Pergunte ao Pop - veja abaixo!). A se lamentar, apenas a ausência da melhor sexy sad song feita por um homem branco nos últimos quinze anos, "Under Your Charms", mas nada que a alegria dos espanhois não tenha compensado. Encerrado antes da meia noite, o show permitia a seus espectadores que fossem pra casa de metrô (não sem antes um pouco de confusão até achar uma entrada aberta, e mais uma vez enrolar-me em três línguas diferentes, até contar com a ajuda de um espanhol bróder). #boanoite - mas ainda não acabou não!



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O primeiro e o segundo dia da viagem a Madri
O show do Sigur Rós em Lisboa
Os primeiros dias em Lisboa

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