5 de mar de 2013

O Mundo com Olhos de Iniciante

A tarde ensolarada e fria que faz hoje em Lisboa me fez lembrar das músicas e desse texto que escrevi em 2010 sobre a estreia homônima da Apanhador Só, para o antigo Pop to the People. Uma das mais instigantes de sua geração, a banda gaúcha promete disco novo para abril/maio, em uma sequência muito aguardada pelo dono deste espaço. Enquanto seu lobo não vem, é tempo de reescutar Apanhador Só. 

Um jeito interessante de pensar no auto-intitulado e recém-lançado disco da Apanhador Só é imaginar contrastes: em plena rua Augusta, indies de calças xadrezes e óculos de borda grossa (sem lentes de grau, obviamente, só pra manter o hype) dançam frevos e sambinhas regados a guitarras e teclados. Ou ainda: o encontro de Stephen Malkmus e Rivers Cuomo com Paulinho da Viola e Luiz Gonzaga em pleno domingo à tarde de sol para uma jam session. Porém, essas duas descrições soam incompletas: a elas falta o lirismo peculiar de quem é “marinheiro de primeira viagem”, que se encontra em todas as faixas de Apanhador Só.

Antes que você pergunte: mas quem raios são esses caras? Uma breve apresentação básica: a Apanhador Só é composta de Alexandre Kumpinksi (voz e guitarra), Felipe Zancanaro (guitarra), Fernão Agra (baixo) e Martin Estevez (bateria), nasceu em Porto Alegre no meio da década e após gravar dois EPs chega ao primeiro álbum (disponibilizado para download no site da banda). O nome da banda é uma colagem: remete tanto ao livro O Apanhador no Campo de Centeio quanto à “Marinheiro Só”, um clássico de Caetano Veloso.

As últimas linhas pareceriam sem propósito maior – apenas uma curiosidade banal - se não fosse a informação que ali está implícita: o mote da Apanhador Só é literalmente misturar as guitarras do rock (representado indiretamente pelo livro de Salinger) com os ritmos e as harmonias da música brasileira. Trata-se de uma idéia que em si não é inovadora - desde os tropicalistas, passando pelos Picassos Falsos até desembocar no manguebeat de Chico Science - mas a cada vez que é feita gera novos resultados. É uma mistura que tem sido utilizada com bastante freqüência na última década. Boa parcela de "culpa" disso pertence aos Los Hermanos e seu primeiro e subestimado disco, onde Camelo e Amarante botaram os descolados pra dançar com o frevo de "Pierrot" e o ska-forró de "Sem Ter Você", só pra ficar em dois exemplos. Mas este Apanhador Só exibe um interessante frescor de bom humor e uma poesia de quem vê o mundo com olhos de iniciante, empolgando e alegrando quem se propuser a escutá-lo.

Fica difícil resistir ao charme de "Origame's Over" e o seu cultivo à beleza das pequenas coisas ("Que é pra/cantar meninas/pintar esquinas/dobrar ori/game's over") ou ao balançado brejeiro de "Maria Augusta" e sua proposta de arrasta-pé. "Vila do Meio Dia" traz a esperança e o otimismo no meio a uma série de coisas ruins ("O meu quintal parou de dar maracujá, uva e limão/Mas com um beijo da Maria tudo vai se ajeitar") - com direito a um belo coro e um empolgante "lá-iá-lá-iá". 

E até mesmo o que é triste no mundo se torna cativante pelas mãos da banda: seja a discussão de casal em "Pouco Importa", seja a tentativa de reconquista - ainda que improvável - e os pequenos detalhes ("Perfume atrás da orelha/Um vestido bem vestido/Um sorriso no rosto/Um punhado de amigos") de algo que já se partiu em "Bem Me Leve". Ou ainda relacionamentos que não se compreendem e se deterioram, em "Peixeiro" e "Nescafé" - a primeira brinca com a ironia, enquanto a segunda idealiza uma solução ("Em que sonho eu sonho meu sonho igual ao teu?").

Não se surpreenda, entretanto, se o disco lhe parecer indigesto de partida: a mudança contínua de andamentos e o barulho das guitarras à moda do Yo La Tengo podem assustar os incautos. Mas a cada escutada, novos elementos se descobrem e tornam o disco mais prazeroso para o ouvinte - lá pela quarta ou quinta vez você conseguirá ouvir nas músicas instrumentos lúdicos como "sacolas plásticas", "interruptores de luz", "balão de aniversário" e "roda de bicicleta". São essas pequenas sonoridades que acentuam ainda mais a importância do cotidiano como ponto de partida para um novo olhar sobre a realidade - algo que aproxima a banda dos poemas de Manuel Bandeira e Mário Quintana.

Mas, se tudo isso que foi dito ainda não foi suficiente pra te convencer a dar uma chance de ser apanhado por esse disco, só resta dizer uma coisa: para o frio tenebroso e triste que se anuncia para os próximos meses, parece não haver lançamento recente melhor para te deixar com um sorriso bobo no rosto que Apanhador Só.

Publicado em maio de 2010, no Pop to the People.
Fotos por Bruno Capelas, maio de 2011, durante as apresentações acústico-sucateiras da banda em São Paulo. 

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